>> Uma nova São Paulo na reformulação do centro antigo.
Na segunda metade do século 19, a cidade de São Paulo, em termos populacionais, teve a maior transformação de sua história devido à agricultura cafeeira e à incipiente atividade industrial, isso porque a necessidade de mão de obra após a Abolição acabou fazendo com que a cidade recebesse imigrantes de várias partes do mundo. No entanto, havia já implícita a idéia de modernização do meio urbano, criando um apego maior pelo moderno em detrimento do antigo, principalmente no quesito colonial. Segundo o pensamento geral, o que representava a colônia e um Estado monárquico deveria ser sumariamente substituído por um novo conceito de vida. A urbanização dos espaços centrais que, a exemplo do que aconteceu no Rio de Janeiro com a reformulação do centro por Pereira Passos, hoje inaceitável, como a demolição do morro do Castelo e sua Igreja Jesuíta, foi de certo modo sentida na demolição de três igrejas centrais de grande importância no passado: A Igreja da Sé, São Pedro dos Clérigos e a Igreja do Rosário, as duas primeiras na região da Sé e a última na região do vértice Norte do Triângulo Central, onde precisamente se encontra a bolsa de valores na Praça Antonio Prado.
A Igreja da Sé, nos registros de Militão e Marc Ferrez em meados da década de 1880, mostram a praça como importante reduto social da época. Quase em frente a essa última, exatamente onde se encontra o prédio da Caixa Econômica e suas magníficas colunas de mármore negro, se encontrava a Igreja de São Pedro, a única com duas torres da cidade. Por fim, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos constituía desde a época colonial uma importante referência para os escravos, já que esta Igreja, segundo a tradição, foi construída com recursos dos próprios cativos em terras por eles habitadas com forte e importante sincretismo religioso. As crônicas da época relatam que os ofícios eram muitas vezes seguidos por instrumentos e ritos ancestrais que não eram vistos com bons olhos pela Igreja católica. Depois de muita contenda essa Igreja e as terras ao redor foram adquiridas pela cúria, que demoliu o histórico edifício religioso e o transferiu para o largo do Paissandu, local onde se encontra até hoje. Alguns historiadores vêem neste ato uma maneira de desmembrar um local incômodo, onde os negros tinham representação política e religiosa, sendo proprietários das terras ali existentes, o que era considerado incomum para a época.
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Foto 01 - Praça da Sé (em torno de 1870)
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Foto 02 - Igreja da Sé (demolida)
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Foto 03 - Igreja de São Pedro dos Clérigos (demolida)
De modo geral, o pensamento da época de se desvincular do passado fez com que importantes igrejas como essas fossem demolidas, fato que hoje seria impossível de imaginar graças ao reconhecido valor histórico que estas construções teriam. Analisando a praça e a nova Catedral, vemos que o estilo da construção, baseado no gótico europeu, anterior às igrejas coloniais ali anteriormente existentes, mostram que nada tem de legitimamente brasileiro visando, segundo especialistas, a apenas colocar a questão da grandiosidade como fator determinante para uma nova cidade, prevendo assim a metrópole que estaria por vir.
Perdeu-se desse modo o interessante convívio desses estilos arquitetônicos, que com certeza se valorizariam mutuamente no nosso já defasado cenário histórico paulistano.
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Foto 04 - Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (demolida)
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Referências:
Foto 01 - Marc Ferrez/Instituto Moreira Salles
Fotos 02/03/04
LAGO, Pedro Correa do. Militão Augusto de Azevedo: São Paulo nos anos 1860. Rio de Janeiro: Marca D'Água, 2001. 263 p. Fotos. (Coleção Visões do Brasil, 2). Apresentação Sergio Burgi. ISBN 8586011479.