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Associação de defesa do patrimônio histórico,
arquitetônico,
cultural e paisagístico da cidade de São Paulo
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>> Arquitetura Neoliberal
(ou: como devastar uma cidade sem bombas)
Jorge Eduardo Rubies
Presidente
da Associação Preserva São Paulo, de defesa do patrimônio cultural e
da paisagem urbana da cidade e da região metropolitana de São Paulo
Resumo/Abstract:
Este artigo discute as profundas mudanças na arquitetura e na paisagem
urbana da cidade de São Paulo ocorridas nos últimos anos, e sua relação
com o neoliberalismo e a apropriação do modelo de democracia representativa
por grupos econômicos privilegiados.
This
article discusses the deep changes in the architecture and urban landscape
of the city São Paulo which occurred in recent years, and its relation
with neoliberalism and the appropriation of the model of representative
democracy by certain privileged economic groups
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Fotos:
Jorge Eduardo Rubies
Para parte dos paulistanos, existe algo de familiar nas cenas
que a televisão mostra sobre Bagdá, Beirute ou a Faixa de Gaza. Por
quase toda a cidade, e em especial nos bairros do Centro Expandido
- o cinturão de antigos bairros residenciais e/ou industriais do começo
do século XX ao redor do Centro Histórico, habitados tradicionalmente
pela classe média e operários - quarteirões inteiros vinham, até poucos
meses atrás, sendo arrasados para a construção de novos empreendimentos
imobiliários. principalmente megacondomínios de luxo.
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Se a cidade de São Paulo foi chamada pelos modernistas de 22 de
autofágica, renovando-se através de um contínuo processo de destruição
criadora, a metáfora mais apropriada hoje em dia talvez fosse a de cidade-metástase,
onde bairros inteiros são destruídos para dar lugar a megacondomínios
isolados e auto-suficientes, e ruas cheias de vida dão lugar a ruas
mortas. Chácara Klabin é um exemplo emblemático, onde os prédios são
hermeticamente protegidos das ruas, e onde não se vê qualquer sinal
de vida humana nas calçadas, com exceção de uma ou outra empregada doméstica
levando os cachorros dos patrões para passear.
Não
importa mais onde se mora, mas perto de onde: quanto tempo se leva para
ir de carro até o trabalho, à escola dos filhos, ao shopping center,
à academia de ginástica. As ruas, antes espaços de sociabilidade e de
convivência, agora estão imundas, pichadas, inseguras, inóspitas e sem
vida, tornaram-se apenas local de passagem, o mais rápido possível,
dos automóveis dos privilegiados, de preferência blindados
As ruas dos bairros
do centro expandido, alguns com mais de um século de existência, foram
acumulando ao longo das décadas uma rica diversidade arquitetônica,
social, de usos e de idades dos prédios: conjuntos de sobrados, casarões
de diversas épocas e estilos, vilas, galpões, predinhos de 2 a 4 andares
com comércio no térreo da década de 40, pontilhados por um ou outro
prédio residencial das décadas de 60, 70 ou 80, gerando uma razoavelmente
alta densidade de moradias. Tais imóveis foram sendo utilizados ou adaptados
para uma extraordinária gama de funções comerciais e de serviços, quase
sempre microempresas: bares, lojinhas, boutiques, padarias, açougues,
mercearias, sapatarias, lavanderias, oficinas mecânicas, encanadores,
eletricistas, chaveiros e uma infinidade de outros usos, que atendiam
à população do local e eram mantidos por ela. Como resultado, tinham-se
ruas cheias de vida durante o dia inteiro, dinâmicas, seguras e agradáveis
para moradores e transeuntes.
Os
atuais empreendimentos imobiliários subvertem completamente esse padrão.
Para começar, não se contentando em ocupar o terreno de um ou dois casarões
antigos, os atuais megacondomínios, com sua escala gigantesca, arrasam
dezenas de prédios e por vezes quarteirões inteiros, apagando de uma
só vez essa exuberante diversidade que constituía a essência dos bairros
tradicionais e que foi lentamente conquistada ao longo de décadas de
história e de experiências urbanas, e gerando uma série de problemas
que examinaremos a seguir. Para conseguir se apropriar de tantos imóveis
ao mesmo tempo, valem-se de métodos de pressão questionáveis
que em certos casos assemelham-se a práticas de intimidação. Em seu
lugar, são em geral construídos prédios de luxo voltados para as classes
sociais mais privilegiadas (o grosso dos novos lançamentos atuais é
destinado esse público-alvo).
Apesar de promoverem uma verticalização maciça de bairros cuja paisagem
se mantinha até então predominantemente horizontal, esses novos empreendimentos,
ao invés de adensarem tais áreas que além de próximas ao Centro e bem
servidas de infra-estrutura possuíam uma exuberante diversidade arquitetônica,
social e funcional, na realidade reduziram a densidade populacional
na mesma proporção em que aumentava a densidade de automóveis, e liquidaram
a diversidade preexistente criando uma monocultura daquilo que eu chamo
de guetos verticais de luxo - ou GVLs. As características principais
desses GVLs são: hermética separação com o mundo exterior através de
uma variedade de barreiras físicas (a chamada arquitetura do pânico),
e conseqüente ausência de diálogo com o entorno; rígida segregação social
e funcional - tais empreendimentos são exclusivamente residenciais e
voltados exclusivamente para as classes mais abastadas; utilização de
enormes espaços urbanos para a moradia de uma quantidade pequena de
pessoas; privilegiamento do acesso por automóvel em detrimento do acesso
de pedestres, grande destaque dado ao automóvel em geral, com generosa
oferta de vagas de garagem; uma tentativa de se destacar do entorno,
de chamar a atenção, de aparecer, tanto através de seu tamanho conspícuo,
como através de fachadas vistosas e empetecadas no chamado estilo "neoclássico",
que também buscam conferir uma pretensa sofisticação ao imóvel e seus
ocupantes; oferta de uma prodigiosa gama de "amenidades" - algumas de
utilidade duvidosa - aos seus ocupantes, com a pretensa finalidade de
tornar o GVL o mais auto-suficiente (e portanto independente da cidade)
possível, todas elas com nomes em inglês ininteligíveis para mortais
comuns, tais como "day care" "fitness center", "garage band", "kids
room" "teen lounge", "dog space" -. Aliás, em meio a essa parafernália,
já foi observado com ironia que o que mais chama a atenção é a total
ausência de bibliotecas, teatros, esculturas e tudo o mais que seja
ligado à cultura.
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Porém a característica
mais marcante e deletéria, a meu ver, dos GVLs é definitivamente a obsessão
com a segurança que chega a beirar a paranóia. Segundo Teresa Pires
do Rio Caldeira, Professora de Antropologia da Universidade da Califórnia,
em seu livro "Cidade de Muros:
Os condomínios
fechados são a versão residencial de uma categoria mais ampla de novos
empreendimentos urbanos que chamo de enclaves fortificados. Eles estão
mudando consideravelmente a maneira como as pessoas das classes média
e alta vivem, consomem, trabalham e gastam seu tempo de lazer. Eles
estão mudando o panorama da cidade, seu padrão de segregação espacial
e o caráter do espaço público e das interações públicas entre as classes.
Os enclaves fortificados incluem conjuntos de escritórios, shopping
centers, e cada vez mais outros espaços que têm sido adaptados para
se conformarem a esse modelo, como escolas, hospitais, centros de
lazer e parques temáticos. Todos os tipos de enclaves fortificados
partilham algumas características básicas. São propriedade privada
para uso coletivo e enfatizam o valor do que é privado e restrito
ao mesmo tempo que desvalorizam o que é público e aberto na cidade.
São fisicamente demarcados e isolados por muros, grades, espaços vazios
e detalhes arquitetônicos. São voltados para o interior e não em direção
à rua, cuja vida pública rejeitam explicitamente. (1)
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Embora seja
responsável por uma mudança radical no modo de vida das classes mais
privilegiadas nos últimos 20 anos, tal fenômeno tem sido virtualmente
ignorado pelo mundo acadêmico. Além de Teresa Caldeira, outra pesquisadora
do assunto é a professora Sonia Ferraz, da Universidade Federal Fluminense.
Segundo reportagem do site No Mínimo:
Durante dois
anos, Sônia Ferraz e uma turma de seus alunos do curso de arquitetura
fizeram um levantamento fotográfico em bairros como Morumbi, Moema,
Higienópolis e Pacaembu, em São Paulo, mais Ipanema, Leblon, Jardim
Botânico e Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Hoje, têm um arquivo
de cerca de mil fotos de casas e edifícios. Embora pareçam diferentes,
quase todos os prédios guardam muitas semelhanças: num mesmo espaço,
convivem o moderno e o medieval. Muralhas. Grades, seteiras, fossos,
lanças e arames farpados que remetem a uma imagem medieval complementam-se
com equipamentos de alta tecnologia, como câmeras, sensores infravermelhos
e torres blindadas. "Estamos vivendo uma época de super-segregação,
de auto-exclusão, e tantas defesas alteram substancialmente as relações
humanas", teoriza Sônia Ferraz. "Algumas construções se assemelham
a presídios de segurança máxima".
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É esse o lugar
onde a classe média paulistana pretende criar seus filhos? É de se perguntar
até que ponto esse tipo de vida tem relação com o surgimento de monstros
como os adolescentes da Barra da Tijuca, todos eles moradores de condomínios
de luxo, que espancaram - por diversão - e roubaram uma jovem que trabalhava
como empregada doméstica num desses condomínios.
Novamente, o livro "Cidade de Muros:
A
associação dos problemas centrais dos condomínios com "nossos filhos"
expressa uma opinião generalizada, que me foi repetida por duas pessoas
encarregadas de organizar a segurança, vários moradores e um síndico.
Os delitos praticados por "nossos filhos" variam, indo desde pequenos
furtos ou de atos de vandalismo contra as instalações coletivas (sendo
o mais comum deles a destruição dos extintores de incêndio) ao consumo
de drogas.
(...)
Dentro dos condomínios, o desrespeito à lei é quase uma regra.
As pessoas sentem-se mais livres para desobedecer à lei porque estão
em espaços privados dos quais a polícia é mantida distante, e porque
encaram as ruas dos complexos como extensões de seus quintais. Na
verdade, quando as pessoas têm noções frágeis de interesse público,
responsabilidade pública e respeito pelos direitos de outras pessoas,
é improvável que venham a adquirir essas noções dentro dos condomínios.
Pelo contrário, a vida dentro dos universos privados só contribui
para enfraquecer ainda mais suas noções de responsabilidade pública.
Se o trânsito em geral é marcado por um desrespeito aos regulamentos,
a situação dentro dos condomínios atinge níveis absurdos.(2)
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Mais dos que a Broadacre City de Frank Lloyd Wright, os desurbanistas
soviéticos, ou mesmo o suburb norte-americano e outros projetos dos
inimigos das cidades, a arquitetura neoliberal é a mais bem-sucedida
tentativa de se acabar com o espaço urbano: os guetos verticais de luxo
estão dentro das cidades mas não fazem parte delas, estão de costas
para elas, estão em permanente conflito com elas. Procuram sugar o máximo
possível das cidades sem dar nada em troca a não ser problemas ambientais,
congestionamentos, medo, insegurança, abandono do espaço público e caos
- em outras palavras, uma relação parasitária. É a antiarquitetura da
anticidade. Como bem colocou o professor de arquitetura Edson Mahfuz
"A médio prazo e pensando na qualidade da vida como um todo, estamos
apenas criando um problema muito maior, porque a prática dos condomínios
fechados, sejam eles habitacionais ou comerciais -e aqui podemos incluir
os shopping centers e os centros de escritórios- está matando as cidades".
Ou, voltando a "Cidade de Muros": "Os enclaves privados e fortificados
cultivam um relacionamento de negação e ruptura com o resto da cidade
e com o que pode ser chamado de um estilo moderno de espaço público
aberto à livre circulação. Eles estão transformando a natureza do espaço
público e a qualidade das interações públicas na cidade, que estão se
tornando cada vez mais marcadas por suspeita e restrição." (3)
Esse
massacre da cidade tradicional ocorre ante a espantosa omissão das entidades
de arquitetos, das universidades e centros de pesquisa. Aliás, a grande
polêmica entre os arquitetos atuais parece ser se os guetos verticais
de luxo devem ter uma fachada "neoclássica" ou "moderna" (sendo que
a versão neoclássica vem ganhando, disparado, na preferência do consumidor).
Por sua nenhuma semelhança com os verdadeiros estilos clássico e neoclássico,
poderia perfeitamente ser chamada de estilo neoliberal de arquitetura.
A
bolha imobiliária de São Paulo, que consagrou a arquitetura e o urbanismo
neoliberais, tem data de nascimento determinada: a aprovação do atual
Plano Diretor, no final de 2002. A licenciosidade urbanística autorizada,
incentivada e exaltada por esse Plano e que merece ser qualificado,
na melhor das hipóteses, como ultraneoliberal, chegou a níveis tão prodigiosos
que uma das tímidas medidas ensaiadas pela atual administração para
abrandá-los (e que sequer chegou a ser aprovada), determinava que megacondomínios
com mais de 50.000 m² teriam que abrir ruas públicas em seu interior.
E isso não em áreas rurais, mas em bairros consolidados e populosos!
Além da carta branca dada pelo Plano Diretor à especulação imobiliária
para fazer com a cidade o que bem entendesse, como se fosse uma carta
de sesmaria colonial, a farra especulativa foi generosamente inflada
por ventos de fora - o dinheiro que até 2008 sobrava no mundo inteiro
e que era aplicado em todo tipo de esquema louco - inclusive a bolha
imobiliária em São Paulo. Sem tal dinheiro, essa bolha teria existência
muito mais efêmera, uma vez que a oferta de imóveis por ela produzida,
quase que exclusivamente voltada para o consumidor de alto padrão, estava
totalmente fora da realidade.
Por
outro lado, o neoliberalismo tanto pode pregar a desregulamentação total,
quando esta fere os direitos individuais e coletivos dos cidadãos menos
abonados em favor das elites, como a regulamentação excessiva, desde
que siga a mesma lógica de privilegiar os mais privilegiados, em detrimento
da maioria. No caso do Plano Diretor de São Paulo e das leis complementares,
essa super-regulamentação se dá no estabelecimento de um zoneamento
extraordinariamente rígido e minucioso, que busca essencialmente banir
o comércio e os serviços das zonas residenciais de luxo e segregá-lo
de preferência em outro tipo de enclave fortificado - os shopping centers.
Essas e outras características da cidade neoliberal procurei resumir
no quadro abaixo:
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Cidade tradicional
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Cidade
neoliberal
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As
ruas são espaços de convivência |
As
ruas são vias de passagem (de automóveis) |
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A
cidade se expande nas áreas vazias ou pouco densas |
Os
megacondomínios destróem a cidade preexistente |
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Diversidade
de usos, de estilos arquitetônicos e de
idades dos prédios |
Homogeneidade
de usos, de estilos arquitetônicos e de
idade dos prédios |
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As
leis urbanísticas são ditadas pelos técnicos |
As
leis urbanísticas são ditadas pela especulação
imobiliáriaAs leis urbanísticas
são ditadas pela
especulação imobiliária |
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A
maioria tem (relativa) participação nas decisões |
As
decisões são tomadas exclusivamente pelos
detentores do poder econômico-financeiro,
em detrimento
da maioria
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Os
códigos de obras se preocupam com os direitos de
vizinhança
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Os
códigos de obras favorecem unicamente os interesses  das
grandes construtoras e ignoram completamente os
direitos de vizinhança |
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O
Centro como espaço privilegiado da cidade |
O
Centro como espaço degradado da cidade |
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Os
novos prédios ocupam os lotes existentes |
Os
megacondomínios fundem os lotes e ocupam
quarteirões inteiros |
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Comércio
de rua vivo e pujante |
Comércio
de rua definhando, e shopping centers
prosperando |
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Edifícios
voltados para a cidade |
Edifícios
e megacondomínios voltados para si mesmos |
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Zoneamento
flexível; predomínio das zonas mistas |
Zoneamento
rígido e segregador |
Ruas
cheias de vida |
Ruas
mortas, desertas, sujas e inseguras |
O
espaço público é valorizado |
O espaço público é abandonado |
Flâneurs |
Helicópteros |
O
cidadão usufrui da cidade, e se sente parte dela |
O
cidadão se sente excluído da cidade, e tem medo dela |
Equilíbrio
entre transporte público e automóveis |
Predomínio
dos automóveis; transporte público precário |
Diante desse quadro
estarrecedor, a pergunta inevitável é: como foi possível que a especulação
imobiliária, com a ajuda do Plano Diretor, devastasse a cidade tradicional
em tão pouco tempo? A resposta reside no âmago do jeito de ser neoliberal,
que levou à corrupção e desmoralização da democracia representativa por
lobbies a serviço de grupos econômicos minoritários. Pois o neoliberalismo
nada tem a ver com o velho liberalismo, nada tem a ver com as liberdades
individuais ou com o livre mercado, das quais apregoa fraudulentamente
ser o paladino. Na verdade, o neoliberalismo consiste na volta da lei
da selva, da lei do mais forte, que no caso é aquele que tem mais dinheiro:
os privilégios de uma minoria se sobrepõem aos direitos individuais e
coletivos da esmagadora maioria, em resumo, os que estão em cima pisam
nos que estão embaixo. Isso vale inclusive para a relação dos donos do
poder e do dinheiro para com a classe média, cujo poder também se viu
esvaziado pelo neoliberalismo. Um exemplo emblemático é o barulho ensurdecedor
que os helicópteros dos ultra-ricos provocam ao sobrevoar em vôos rasantes
os bairros da classe média, uma forma moderna de demarcar território e
dizer: "quando eu passar, baixe a cabeça".
Na
política neoliberal, o eleitor e a opinião pública passam a ter um papel
secundário: com campanhas eleitorais cada vez mais caras graças aos
valores milionários cobrados pelos marqueteiros com seus efeitos especiais
e artifícios de marketing e técnicas orwellianas de manipulação, os
verdadeiros protagonistas das eleições passaram a ser os financiadores
de campanha. O caso da cidade de São Paulo é extremamente revelador:
mais até do que os grupos de interesse minoritários que tradicionalmente
financiavam as campanhas após a redemocratização - empresas de ônibus,
de coleta de lixo e empreiteiras - a bolha especulativa alçou o setor
imobiliário à condição de Grande Eleitor na cidade nas últimas duas
eleições. Segundo levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo,
nas eleições de 2004, seis dos sete principais financiadores das campanhas
para vereador eram empresas do setor imobiliário, sendo que quase metade
- 43% dos vereadores para ser mais exato - receberam contribuições desse
setor. Na eleição de 2008, essa tendência se acentuou ainda mais: A
Associação Imobiliária Brasileira (AIB), lobby do setor imobiliário,
distribuiu quatro milhões de reais para 42 candidatos a vereador em
São Paulo nas últimas eleições. Nem um ingênuo acreditaria na extraordinariamente
cínica explicação de certo vereador, de que tais contribuições seriam
decorrentes de "amizade pessoal". Trata-se, isso sim, da legalização
da corrupção - nada mais, nada menos - e a mercenarização e desmoralização
do regime democrático. Os vereadores beneficiados pelas benesses do
setor imobiliário aprovam projetos do interesse deste, geralmente -
ou quase sempre - conflitantes com os interesses da cidade e do restante
da sociedade. A corrupção legalizada que é o financiamento privado de
campanhas fez com que a bolha imobiliária transformasse a cidade num
megacassino especulativo sem regras e sem controle, e com carta branca
para fazer o que bem entendesse desde que servisse ao objetivo único
de satisfazer sua ganância ilimitada - e foi exatamente isso o que aconteceu.
A
orgia de doações para campanhas nas eleições de 2008 marcaram o ocaso
da bolha imobiliária mais devastadora e descontrolada que já se viu
na história, e que concidiu com a eclosão da grande crise mundial. Enquanto
o mundo mergulha numa provável nova Depressão, a cidade de São Paulo
mal começa a se dar conta do preço que terá de pagar por não ter resistido
- ou melhor, ignorado completamente o monstruoso esquema de dominação,
corrupção e destruição gestado pelos agentes da bolha especulativa.
As ações das grandes construtoras - a maioria das quais abriu seu capital
de forma estrepitosa na esteira da euforia econômica mundial - e que
chegaram a atingir niveís astronômicos em meados de 2008, logo em seguida
viraram pó. Das 10 ações com maior queda em 2008, três são de construtoras.
Avassaladas por um nível de endividamento impagável, e assistindo ao
mercado consumidor desaparecer como uma miragem, várias delas agora
se encontram a um passo da falência - para citar apenas um exemplo,
uma delas, responsável pela destruição do mais importante casarão do
bairro de Vila Mariana, situado na R. Vergueiro, e que num gesto de
marketing desesperado, apregoa como tábua de salvação sua compra por
um ex-bilionário espanhol - falido. E num gesto tipicamente neoliberal,
elas que pregavam a não intervenção do Estado em seus assuntos (a não
ser, é claro, para beneficiá-las), agora clamam por pacotes de ajuda
do governo, contando com a eterna boa vontade para com eles de seus
amigos (leia-se serviçais) no Executivo e no Legislativo. O pacote certamente
será suficiente para preservar as fortunas amealhadas pelos especuladores
durante a bolha imobiliária, mas não para salvar compradores de imóveis
que a cada dia que passa vêem a possibilidade de seus apartamentos saírem
do papel se tornarem mais remotas. A questão foi muito bem resumida
pelo jornalista Pedro Porfírio da seguinte forma: "não precisa ser inteligente
para ver que essa tramóia do mirabolante milhão de casas populares é
mais uma cortina de fumaça para justificar o desvio de 36 bilhões de
reais para a meia dúzia de incorporadores e construtores que tomaram
um susto com a trava na farra que vinham fazendo junto à vulnerável
classe média".
O
resultado será um rastro de esqueletos de prédios, de terrenos vazios,
de quarteirões demolidos, de comunidades desestruturadas e de bairros
arrasados pelo Centro Expandido da cidade. Uma grande quantidade de
cicatrizes urbanas que levarão muito tempo para serem curadas - se é
que isso vai ocorrer um dia. E São Paulo ostentará o título de primeira
cidade devastada em tempos de paz, um legado dos tempos em que serviu
como campo de provas da antiarquitetura e do antiurbanismo da era neoliberal.
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NOTAS:
1 - CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação
e cidadania em São Paulo. São Paulo: Ed. 34/Edusp, 2000, pgs. 258-259.
2 - Id. pgs. 278-279.
3 - Ibid. pg. 259.
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Associação Preserva São Paulo
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