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Associação de defesa do patrimônio histórico, arquitetônico,
cultural e paisagístico da cidade de São Paulo


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>> ESTABELECIMENTO AMIGO DO PATRIMÔNIO

Café Elétrico Bar
Por Gabriel Rostey


Desde junho de 2008, São Paulo conta com uma opção que é, infelizmente, bastante rara dentro de sua vasta oferta de bares e restaurantes: um local que alia decoração e público modernos ao aconchego de um casarão, em estilo eclético, de 1926 com muitas de suas características originais preservadas, tais quais janelas, portas, pisos, forros e treliças.

Essa mistura de café, restaurante e bar foi idealizada, desde sua concepção até a decoração, por seus proprietários - o casal Aroldo e Dina. Tendo como especialidade mais de 40 rótulos de cerveja, os crepes, e sanduíches no pão bagel (pão em forma de rosca de origem judaica, muito popular nos Estados Unidos), a casa explora exemplarmente o charme que uma construção antiga pode conferir ao ambiente, tendo para isso, inclusive, investido em uma restauração que durou 10 meses.

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Fotos: Rodolfo Chufan e Gabriel Rostey

Em 20/08/2009 entregamos o primeiro diploma de
"Estabelecimento Amigo do Patrimônio"
ao Café Elétrico Bar e realizamos esta entrevista com seus idealizadores:



PreservaSP: Vocês não só instalaram o bar em uma construção antiga, o que infelizmente é raro em São Paulo, como ainda a restauraram. Por reconhecimento a isso, gostaríamos de lhes entregar o diploma de "Estabelecimento Amigo do Patrimônio" e saber o que vocês pensam sobre o cenário do patrimônio histórico em São Paulo


Dina: Obrigada! Bom, nós gostamos de construções antigas, não por acaso estamos aqui, apesar das dificuldades. Uma coisa que sempre me chamou a atenção é ver como muitas são usadas como pensão. Inclusive, durante as obras de restauração, muitas vezes tinha gente que tocava a campainha aqui e perguntava "Vai ser pensão? Qual o preço do quarto?". E o pior é que os preços cobrados costumam ser muito caros, uma exploração.

Aroldo: É engraçado, né, porque as pessoas fazem isso de não preservar para as futuras gerações uma estrutura que com certeza influenciaria novos arquitetos. E não sei se é só cultural ou se isso tem a ver com o fato de São Paulo ter muita gente de outros lugares, porque com isso pode acontecer de as pessoas não terem o envolvimento necessário com a cidade, não se importam com ela. Se formos comparar, por exemplo, com Belo Horizonte, vemos que lá cuidam mais e utilizam melhor as construções antigas do que aqui.


PreservaSP: A Dina mencionou as dificuldades de se instalar em um imóvel como este. Quais seriam, além da restauração?

Aroldo: Além dos custos e do tempo da restauração, tem a dificuldade de se encontrar mão-de-obra qualificada e que não cobre preços exorbitantes. Os primeiros orçamentos que fizeram para restaurar aqui eram altíssimos! Depois encontramos uma empresa que cobrou preços mais justos. Além de que, só por ser em uma construção antiga, cobram mais pra fazer qualquer obra - mesmo que seja, por exemplo, uma pia comum - e que não tenha nada a ver com o fato de ser um imóvel antigo. Acham que se estão restaurando uma construção antiga é porque tem muito dinheiro, como se fosse um capricho. E a localização aqui também facilita esse pensamento.


PreservaSP: Desde o começo vocês tinham a idéia de se instalar em uma construção antiga?

Dina: Nós gostamos desse tipo de imóvel, mas não necessariamente. Já conhecíamos esta casa de vista porque passávamos em frente pra ir ao nosso dentista. Antes de pretendermos abrir o negócio, eu até pensei "Olha, essa casa dava um bom bar!", mas sem nenhuma intenção. Aroldo: Até que, mais pra frente, enquanto a gente buscava um lugar pra alugar pro bar, vimos uma pessoa aqui na casa. Demos nosso telefone e falamos que tínhamos interesse em alugar, para que avisasse o proprietário. Mas nada aconteceu e seguimos procurando, até que seis meses depois, quando estávamos quase fechando com um ponto na Rua Martim Francisco - só que receosos porque era menor do que queríamos - nos ligaram dizendo que aqui estava disponível.

 


PreservaSP: E qual era o estado do imóvel?

Dina: Péssimo, tanto que estava até fechado. Mas outra coisa legal é ver o efeito multiplicador na região, porque quando a gente começou, o vizinho da frente pintou a fachada, um outro casarão que tem aqui pra baixo foi inteiramente restaurado - é usado como escritório de um advogado. Até o prédio da Receita Federal aqui na rua ficou melhor. O proprietário do imóvel da frente pediu o contato do nosso pedreiro, Ou seja, é uma coisa que um vizinho começa a ver e se inspira pra fazer igual, bem legal. A gente percebeu que no que a gente começou, a rua foi ficando mais bonita.

 


PreservaSP: E depois da restauração, como a casa ganhou a cara atual?

Aroldo: Muita gente vem aqui e quer saber quem é o arquiteto. O projeto é nosso mesmo. Onde deu pra recuperar os elementos originais - como nos pisos ou as treliças do teto - nós deixamos. Mas onde não, buscamos fazer coisas mais modernas, como o forro da parte externa e as luminárias - que nós mesmos mandamos fazer.

Dina: Virou um projeto nosso mesmo, como se fosse um filho. A gente gosta de cuidar de alguns detalhes como, por exemplo, a máquina de café estilo retrô que temos aqui. Alguns clientes vêm sempre e elogiam muito a casa e esse cuidado. Entre eles, estrangeiros, como alguns franceses, argentinos...

 


PreservaSP: Talvez tenha a ver com estarem mais acostumados a freqüentar comércio em construções antigas. E muita gente ainda prefere demolir pra fazer estacionamento no lugar...

Aroldo: O pior, mesmo nesse caso que você deu, é que se a pessoa quiser, ela pode ter seu estacionamento e manter a fachada, o que inclusive vai valorizar seu estacionamento, como no caso do Restaurante Jardim di Napoli, lá na Rua Martinico Prado.

 


PreservaSP: É verdade, e tem outro caso parecido na Rua Martim Francisco, ao lado do Colégio Claretiano.


Aroldo: E nesse caso do Jardim di Napoli, além da fachada que foi preservada, parte das casas ainda existe e tem um uso. Você percebe que isso depende muito de quem usa, ou do dono, já que às vezes pode ser uma imposição do proprietário. Outro exemplo é o Hotel Comfort Downtown, no centro, que mantém aquela fachada antiga.

 


PreservaSP:. Nós do PreservaSP reclamamos da falta de estímulos econômicos da Prefeitura para as construções antigas...

Dina: Quando chegamos aqui e soubemos que era antigo, quisemos saber se havia algum incentivo ou impeditivo, mas não havia nada. Parece que só na região da Luz é que tinha um incentivo, de financiamento de restauração de imóvel antigo com parcelas num valor muito baixo.

 


PreservaSP: Vocês falaram que bastante gente entra aqui. Quais são as vantagens de ser numa construção antiga?


Dina: O que mais ouvimos aqui desde que chegamos é que a casa é "aconchegante". E a gente tem a intenção de que quem entre aqui, fique um bom tempo, não vá embora logo. E realmente é o que acontece, quem vem aqui, fica.

Aroldo: Outra coisa é o pé-direito. Aqui tem um pé-direito de 5 metros, enquanto na maioria das construções novas o pé-direito é de uns 3 metros de altura. Acho que nos ajuda bastante também as características do imóvel em relação ao som, já que as paredes são bem mais grossas e com isso o som não se propaga tanto, não vai pra rua. A acústica da casa é excelente, muito boa.

 


PreservaSP: E chama a atenção, também. Nós mesmos descobrimos aqui olhando a fachada, e só então é que vimos a plaquinha do bar.


Dina: Sempre tivemos em mente que a fachada tinha que ser discreta. E algumas pessoas não entendiam direito o que era aqui, por causa do nome e porque nunca estava aberto de dia. Pensavam "Mas é um café e não abre de dia?", e isso acaba atiçando a curiosidade. Mas quando a pessoa entra, acaba se surpreendendo, com o pé-direito, as luminárias grandes, então elogia bastante.

Aroldo: É verdade, todo mundo elogia as luminárias, acredita que é dos anos 60. Elogiam bastante a cor interna da casa, parece realmente que "estou na sala da minha casa no fim de tarde e o Sol está batendo". De fato a casa passa uma sensação de amplidão, já que tem pé-direito alto, e portas e janelas com essas dimensões.

Dina: Todo mundo se impressiona com a altura das portas, comentam "Mas morava um gigante aqui?" (risos).

Aroldo: Você percebe que isso agrada, não dá uma sensação de aperto, pelo contrário: dá a sensação de liberdade. E hoje não mais, mas com certeza essas janelas enormes foram feitas pra apreciar a paisagem que se tinha daqui - de natureza inclusive. Têm história pra contar.

Dina: Só se for do Córrego Pacaembu (risos).

 


PreservaSP: E do momento que vocês alugaram a casa, quanto tempo passou até iniciar o funcionamento?

Aroldo: Dez meses restaurando a casa. Foi um tempo razoável.

Dina: Até por inexperiência. Por isso que a gente gosta mesmo. Agora a gente está se aventurando com uma geladeira da década de 40 que eu ganhei, uma Coldspot vermelha com um design lindo - parece um capô de carro, com vinco. Estamos restaurando a geladeira e ela vai chegar no sábado agora (Nota do Editor: até a publicação desta entrevista, a geladeira já estava no Café Elétrico). O designer dela é o Raymond Loewy, super conceituado, trabalhou pra NASA e tudo o mais. Só o que faltava pra completar o clima aqui era uma geladeira dessa.

 

PreservaSP: Contem-nos mais sobre o bar.

Aroldo: Agora também servimos no almoço, de segunda a sexta. Temos uma variedade muito grande de cervejas, que vão de R$ 4 a R$ 80. Pra exemplificar, temos bock; pilsen com mandioca; com trigo, mel, rapadura, ou café na composição. Também servimos o Café Illy.

Dina: Nós, de certa forma, preservamos o patrimônio até mesmo nas músicas que tocamos, como Beatles, e no uso de vinis. Às vezes tem filhos de clientes que chegam aqui e não sabem o que é um vinil. E a gente queria soar moderno, mas sempre com essa preocupação de fazer uma ponte do antigo com o moderno.

 

 




 


Café Elétrico Bar

Rua Francisco Estácio Fortes, 153 - Pacaembu
Telefone: (11) 2476-5021
http://cafeeletricobar.blogspot.com

Horário de Funcionamento:
Segunda a sexta: 12:00 às 16:00
Quinta e sexta: 19:00 à meia-noite
Sábado: 19:00 à 1:00 0

 
 


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