Resgate da Vila Itororó fica no papel
Estado e Município liberaram verba, mas desapropriação difícil e resistência de moradores pararam projetoDiego Zanchetta
A música ecoa pelo pátio do palacete de 1920 que seria transformado em centro cultural e gastronômico. Nas janelas dos sobrados previstos para serem convertidos em bistrôs, as roupas estendidas ajudam a ilustrar o abandono da construção erguida pelo mestre de obras português Francisco de Castro no século passado. Quase três anos após um decreto autorizar a desapropriação das casas de 72 famílias instaladas na histórica Vila Itororó, um dos principais marcos arquitetônicos de São Paulo, na Bela Vista, segue degradado e sem perspectivas de se tornar um pólo de entretenimento, como planejaram governos municipais durante três décadas.
O ex-prefeito e hoje governador José Serra (PSDB), por exemplo, refez a promessa de seus antecessores, de revitalizar a área, no dia 23 de janeiro de 2006, e deu prazo de um ano e meio para tocar a obra. "Vai abrigar todas as coisas que pessoalmente gosto, dentre elas um espaço para atividades de educação, cultura, turismo e lazer", declarou.
E dinheiro não faltou ao projeto. Entre 2006 e o fim de 2007, foram gastos R$ 3,7 milhões pela Prefeitura no processo de desapropriação. Outros R$ 11,3 milhões foram empenhados em abril deste ano pela gestão Gilberto Kassab (DEM). Mas a resistência dos moradores à mudança da região central e uma ação judicial que contesta os R$ 4,6 milhões depositados em juízo à Instituição Beneficente Augusto de Oliveira Camargo, de Indaiatuba, dona da área, impedem qualquer intervenção nos 4,2 mil m² tombados pelo patrimônio histórico em 2002.
Diante do impasse, as verbas do projeto foram reduzidas em julho a R$ 8,4 milhões - e nenhum centavo desse montante foi aplicado até agora. "Nós temos em juízo R$ 4,6 milhões do Estado. Mas o espaço vale pelo menos R$ 7 milhões, caso contrário a Prefeitura não investiria R$ 11,3 milhões na revitalização. O local está às margens da Avenida 23 de Maio e é muito bem localizado", afirmou ontem Renato Sargo, diretor da instituição beneficente. "O dinheiro que vamos receber pela indenização da Prefeitura será destinado ao nosso hospital filantrópico."
Entre os moradores, ninguém quer sair, apesar de a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) ter oferecido crédito imobiliário e possibilidade de moradia popular no centro. "O problema é que ninguém nunca sabe o que a Prefeitura quer fazer aqui. Todo mundo vive bem aqui", afirmou o autônomo Jair Fernandes, de 44 anos, morador da vila há 22.
RUÍNAS
Historicamente, a implementação da Vila Itororó representou um momento único no desenho urbano do bairro da Bela Vista. O conjunto formado por 37 casas e um palacete com piscina se articula por um pátio que se transforma em eixo de circulação e espaço de convivência entre os moradores. Na década de 1950, quando morreu o português Francisco de Castro, o conjunto foi leiloado e arrematado por credores. Mais tarde, o complexo acabou doado à Instituição Beneficente Augusto de Oliveira Camargo.
Atualmente, os sobrados estão subdivididos em até quatro residências. Dentro do palacete também há divisórias nos cômodos que permitem a presença de sete famílias. Restos de entulho estão espalhados por toda a grama do conjunto e ajudam a consolidar a fama do local nas vizinhanças como "cortiço da Rua Pedroso".
"O local está quase como uma ruína. Mais um pouco e não será mais possível nenhum projeto de revitalização para o conjunto", prevê o historiador Benedito Lima de Toledo, autor de um projeto de revitalização, de 1976, para a Vila Itororó.
A Secretaria Municipal de Cultura, por sua vez, informou que a morosidade da Justiça nas desapropriações e a resistência dos moradores viraram entraves ao projeto. O governo municipal não tem, até agora, nenhum título de posse dos imóveis do conjunto. Os R$ 8,4 milhões destinados à recuperação da Vila Itororó deverão ser remanejados para outras pastas com projetos em fase de execução, segundo a assessoria da secretaria.
Publicado no Estadão.com.br - 03/09/2008http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20080903/not_imp235204,0.php