Imóvel histórico do centro de São Paulo completa 100 anosExemplo de preservação e marco da resistência histórica no centro da capital.
Já se tornou senso comum a crítica à situação dos imóveis no centro comercial da cidade de São Paulo.
Fachadas deterioradas, intervenções arquitetônicas sem nenhum critério e soluções de comunicação visual que escondem o imóvel vêm, há décadas, acabando com o patrimônio arquitetônico da região.
Em meio à dissipação da memória, um imóvel localizado em uma das ruas mais movimentadas, e igualmente degradada da cidade, resiste ao tempo. Insiste em se impor, majestoso, preservado e belo, aos olhos de quem passa pela rua Florêncio de Abreu, próximo ao largo São Bento.
É o sobrado em estilo Art Noveau, construído no início do século XX, sede até hoje da Casa da Bóia, empresa pioneira na comercialização de material hidráulico em São Paulo e primeira fábrica brasileira de artefatos de cobre.
Além de ter sido o primeiro imóvel destinado ao comércio de metais não ferrosos (inaugurando a vocação da rua Florêncio de Abreu de comercializar ferragens e ferramentas), marca um estilo da época: o de se unir instalações comerciais às residenciais de seu proprietário em um único imóvel.
E foi exatamente este o objetivo do imigrante sírio Rizkallah Jorge Tahan, quando decidiu erguer o imóvel para abrigar, em sua parte térrea, a fábrica e a loja, e no primeiro andar, sua própria residência.

Sobrado sede da Casa da Bóia que completa 100 anos
Este fato resultou na grande preocupação com a qualidade do imóvel, no esmero e rara beleza dos detalhes construtivos.
A arquitetura do sobrado prima pelos detalhes da fachada, construída em granito cinza claro, com arcos, colunas e balcões ricamente trabalhados, gradil de ferro fundido artesanalmente, vidros jateados, portas de madeira maciça, ornamentos e imagens mitológicas.
Em 1996 Mário Roberto Rizkallah, neto do fundador da empresa, tomou a iniciativa de buscar o resgate histórico do imóvel.
“Sempre admirei a arquitetura de locais como as cidades históricas de Minas e as centenárias cidades europeias. Os trabalhos de restauração destes imóveis sempre me interessaram muito. Do mesmo modo tinha em minhas mãos um patrimônio arquitetônico muito rico e que estava se deteriorando. Antes que fosse muito tarde resolvi intervir”.
Com o apoio da Secretaria Municipal da Cultura, que desenvolveu o projeto de estudo “Florêncio de Abreu Atrás da Fachada” e das Tintas Ypiranga, que forneceu as tintas para a restauração, Mário Rizkallah contratou uma empresa especializada em restauração histórica, a empresa Gepas, Arquitetura e Restauração, para executar as obras.
Findo o restauro, a fachada do imóvel voltou a expor a quem passa pelo local, as mesmas características construtivas e as mesmas cores de quando fora inaugurado, em 1909, há exatos 100 anos, fato comprovado pelas datas esculpidas e algarismos romanos e no idioma árabe na própria fachada.
Em 2001 a fachada passou por um novo restauro a fim de preservar o trabalho anteriormente feito e que já vinha apresentando algum desgaste e, agora, para comemorar os 100 anos de construção de sua sede, e também os 111 anos de atividades da empresa, uma nova limpeza reparou seus pequenos desgastes.

A fachada restaurada
História preservadaA bela e preservada fachada é a parte mais visível de um projeto pessoal de resgate da memória histórica do imóvel e da memória da empresa.
No ano em que completou 100 anos, 1998, a Casa da Bóia constituiu um museu dentro das salas que um dia foram os cômodos da residência de seu fundador. Foi criado, naquele ano, o museu da Casa da Bóia.
Para sua instalação, ao realizar a reforma destinada ao museu, Mario Rizkallah se deparou com indícios da pintura original do imóvel. Uma empresa especializada foi contratada e a reforma das paredes da sala resultou em um belo trabalho de restauração, recuperando-se a rica e trabalhada pintura original do cômodo.
Desde então foram surgindo novos materiais, guardados em caixas antigas, depósitos pouco usados ou gavetas quase nunca abertas. O resultado é que dezenas de livros contábeis, contratos, faturas de venda, letras de câmbio, canhotos de talões de cheque, alvarás, plantas do imóvel e até um filme, em 35 mm, produzido para a comemoração dos 30 anos da empresa, em 1928, foram recuperados.
A descoberta de mais este acervo histórico motivou a empresa a ampliar seu museu. Como na época de seu centenário, uma nova sala do andar superior foi devidamente restaurada em 2003 para receber as novas peças.
Novamente foram pesquisadas e reconstituídas nas novas salas as características originais do imóvel, como as belas portas e janelas feitas em pinho-de-riga, escondidas por camadas de tinta ou a pintura ricamente trabalhada das paredes, característica das residências do início do século passado.
Todo este novo acervo, além do já existente, foi colocado à disposição do público em maio de 2003, quando a Casa da Bóia completou os seus 105 anos de atividades.
Ao comemorar os 100 anos de construção de sua sede e os 111 anos de fundação da empresa, ocorridos no dia 20 de maio, o empresário Mário Roberto Rizkallah reafirma o compromisso pessoal com a preservação do patrimônio histórico, que embora particular, faz questão de compartilhar com a cidade.
“As pessoas precisam perceber que preservando seus imóveis estão preservando sua memória e a memória da cidade. É mais barato restaurar uma fachada do que mandar fazer estruturas para escondê-las. Sem falar no gosto pessoal de rever a beleza de um imóvel antigo, apreciar uma forma de arquitetura que já não se faz mais e, tudo isso só tem sentido se for compartilhado.
É claro que conta a satisfação pessoal de preservar a história de minha família, mas o maior retorno é caminhar por uma região deteriorada e ver que o nosso imóvel se apresenta com sua riqueza arquitetônica tal qual quando foi inaugurado há 100 anos”, finaliza Mário Roberto Rizkallah.
Serviço 
O andar superior abriga um museu
Localizada no número 123 da rua Florêncio de Abreu, próxima à estação São Bento do Metrô, a Casa da Bóia mantém um museu com peças fabricadas no início do século XX, contratos, objetos antigos e documentos que contam um pouco de sua história e da evolução do comércio no último século.
Um vídeo feito com imagens da empresa em 1928 faz parte do acervo, que é aberto ao público mediante agendamento prévio.
A visita é gratuita e pode ser agendada pelo telefone 11 3228-6255
info@casadaboia.com.brwww.casadaboia.com.br
No site FAROL COMUNITÁRIO:http://www.farolcomunitario.com.br/cultura_000_0097.htm