A caligrafia de dom Pedro 2º por Sílvio Lancellotti
"Meu querido Papá de coração sinto que estivesse doente..." 
Carta original escrita por dom Pedro 2º, aos nove anos, em 2 de setembro de 1834
Jefferson Coppola/Folha Imagem
A caligrafia é impecável. Com essa frase, em 2 de setembro de 1834, aos nove anos, Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Habsburgo, o futuro imperador Pedro 2º (1825-1891), iniciou uma carta de saudades ao seu progenitor, Pedro 1º (1798-1834), acamado em Portugal. O "papá" não pôde ler a correspondência. Quando ela aportou em Lisboa, depois de quase um mês de viagem de navio a velas, dom Pedro 1º já havia morrido, de tuberculose.
O documento original se alinha, com outras preciosidades, inclusive um par de desenhos do menino, numa das salas da linda residência que Oswaldo Arthur Bratke projetou, em 1950, por encomenda do engenheiro e mecenas
Oscar Americano (1908-1974). Desde a sua morte, a propriedade foi transformada na sede de uma exuberante fundação que também homenageia a sua mulher, Maria Luisa (1918-1972), no bairro do Morumbi, quase em frente ao palácio do governo do Estado de São Paulo.
Na sua existência de preservadores da cultura, Oscar e Maria Luisa montaram um acervo de pinturas, esculturas, tapetes, móveis, objetos de prata e de porcelana, amostras da história do país desde os seus idos de Brasil Colônia, no século 17. Os herdeiros do casal adquiriram as peças da lavra do menino em dois leilões, na Suíça, entre 1981 e 1983.
Com um orgulho aristocrático, Cláudia Vada Souza Ferreira, 48 anos, 15 deles na Fundação Maria Luisa e Oscar Americano, conta que o lugar, mensalmente, de terça a domingo, recebe visitas monitoradas de cerca de 2.000 estudantes, sem incluir outros quase 3.000 frequentadores que procuram o bucolismo do parque ao redor da residência, o seu famoso salão de chá, os seus concertos musicais (da erudita pianista Clara Sverner ao cantor João Bosco) -e, claro, as relíquias de seu museu.
O atendimento é delicioso. Leandro Luís da Silva Gomes, 27, segurança, se envaidece ao rememorar o que aprendeu na fundação: "Boa parte da história do Brasil está aqui", ele aponta, sorridente, olhos brilhantes de emoção. "Nunca imaginei que tomaria conta da caligrafia de dom Pedro 2º."
Publicado na Revista da Folha (12/07/2009)
http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf1207200916.htm