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Autor Tópico: Primeiro cinco estrelas de SP, Grande Hotel Ca'd'Oro fecha as portas no dia 20  (Lida 875 vezes)
Tatiane Cornetti
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« : 29/Novembro/2009, 10:46:43 »

Primeiro cinco estrelas de SP, Grande Hotel Ca'd'Oro fecha as portas no dia 20

Marlene Bergamo/Folha Imagem

Entrada do hotel Ca'd'Oro, primeiro cinco estrelas de São Paulo, que será fechado no dia 20 de dezembro; rei Juan Carlos 1º da Espanha já se hospedou no local

DA REPORTAGEM LOCAL

No dia 20 de dezembro São Paulo perderá um dos seus endereços mais vistosos, o Grande Hotel Ca'd'Oro, fincado na rua Augusta, 129, centro.
Com 57 anos incompletos, aquele que foi o primeiro cinco estrelas da cidade trancará as portas de vidro e madeira que já se abriram para o rei Juan Carlos 1º da Espanha, Nat King Cole, François Mitterrand, Vinicius de Moraes, Di Cavalcanti, Nelson Mandela, Pelé, Pavarotti e até para a Presidência da República (nos anos 80, em duas oportunidades, o hotel foi sede oficial do governo).
Vai-se, assim, um dos últimos remanescentes de uma época em que negócios, cultura, turismo e lazer classe A ainda aconteciam no centro.
Primeiro foram os hotéis Samambaia e Vila Rica. Depois, um a um, apagaram também as luzes o Caesar Park, na rua Augusta, o Hilton, na avenida Ipiranga, o Othon Palace, na Praça do Patriarca, o Crowne Plaza, na rua Frei Caneca.
O centro deixou de ser uma região de grandes hotéis para executivos de alto escalão (estes migraram para Vila Olímpia, Itaim e Brooklin) e se tornou polo de comércio popular, atraindo cada vez mais comerciantes de outros Estados em viagens de compras.
A diária mais barata do Hilton (agora sediado no Morumbi), de R$ 559 -mais R$ 61 do café da manhã, mais 5% de ISS, mais R$ 6 de taxa de turismo-, deu lugar à hospedagem econômica de R$ 95 do Formule-1 da avenida São João.
Aurelio Guzzoni, 59, proprietário do Ca'd'Oro, diz que o fechamento é apenas provisório, que o hotel será reformado. "Pretendemos reinaugurá-lo antes da Copa de 2014", afirma, fazendo mistério sobre uma "parceria com um grande grupo internacional".
Para os funcionários, porém, a conversa é de fim de linha. Uriel, há dez anos "bell boy" do hotel, mostrou as instalações do Ca'd'Oro a um possível hóspede que indagava "por que vai fechar?" Os olhos dele encheram-se de lágrimas: "Eu não entendo mesmo isso."
É que o Ca'd'Oro fecha as portas ainda bonito, limpo e bem cuidado. Nada a ver com a agonia e morte de outro ícone do centro, o Othon Classic, que despencou em vida até se transformar em hospedaria popular, diárias nominais de R$ 120, que podiam sair por menos de R$ 80, e poeira capaz de causar acessos de rinite em quem só passasse perto.
Com diária a R$ 280 (preço para apartamento de casal), o Ca'd'Oro mantém a pose, apesar de já ter desativado uma das torres de apartamentos. O estilo ainda é o anticlean, luxo de outras épocas: muitos quadros, tapetes persas, lustres de cristal, poltronas de couro, esculturas venezianas, espelhos e lambris. Muitos.
Nos apartamentos, uma deliciosa atmosfera vintage, túnel do tempo -azulejos decorados ao estilo dos anos 1960 e 1970, nada de lâmpadas dicróicas nem de tevês de plasma ou de LCD. Nos tempos do Ca'd'Oro, isso não tinha sido inventado ainda.
É como o vagão de luxo de um trem-fantasma -vazio. A situação é a mesma no restaurante do hotel, onde se servia o cozido mais famoso da cidade, conhecido pelo nome italiano "bollito misto". Na semana passada, o local não contava com uma única reserva, e a receita antidiet do cozido que leva línguas, músculos, paletas de vitela, charques, frangos, embutidos italianos, repolhos, batatas-doces, mandioquinhas, cenouras, batatinhas e cebolas -tudo ao mesmo tempo- não saiu.
O pintor Di Cavalcanti, nos anos 1970, morou em uma suíte de 120 metros quadrados com sala, quarto, dois banheiros e um ateliê. Era ali que Marina Montini, modelo e musa inspiradora, posava para seus quadros. Porque sempre estava duro, Di pediu várias vezes para pagar a conta do hotel com suas obras. "Pena que não aceitamos", lamenta Aurelinho Guzzoni, da terceira geração de Fabrizio Guzzoni, fundador do Ca'd'Oro.
"Quem faz um hotel são seus hóspedes", dizia o patriarca. Quem desfaz um hotel é a falta deles -está provado.
(LAURA CAPRIGLIONE e VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO)



Publicado na Folha de São Paulo (24/11/2009)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2411200922.htm
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