Revista da Folha - de dentro para foraAO COMPLETAR CEM ANOS, A ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS RESTAURA SUA SEDE NO AROUCHE,
PROMOVE REUNIÕES EXTERNAS E DESPERTA POLÊMICA ENTRE OS IMORTAIS[/b]

Entrada da sala de reunião
por Maria Eugênia de Menezes
Toda quinta-feira, ele fazia tudo sempre igual. Levantava cedo, escolhia a roupa com apuro -calça social, terno branco, gravata borboleta- e, às 10h, já estava a postos no prédio do largo do Arouche, no centro de São Paulo. Durante 23 anos, o garçom José Luiz Amaro, 57, cumpriu religiosamente esse ritual para preparar o chá dos imortais da APL (Academia Paulista de Letras).
O primeiro passo, ele lembra, era estender a toalha rendada sobre a mesa de jacarandá. Depois, precisava escolher qual dos dois arranjos de flores de plástico usar na decoração, arrumar cuidadosamente as xícaras e dispor nas bandejas os salgadinhos encomendados.
Não se esquecia de separar o baldinho de gelo e a garrafa de uísque. "Alguns acadêmicos gostam de tomar uma dose, depois do chá", ele conta.
Mas, desde que as obras de restauro do edifício começaram, a rotina de Zé Luiz não é mais a mesma. Operários e arquitetos tomaram o lugar dos escritores ilustres e, há seis meses, trabalham para recuperar o teto do auditório da academia, que ruiu em 2007. A intenção do presidente da casa, o desembargador José Renato Nalini, era inaugurar a reforma para a festa de cem anos, celebrado no último dia 27. Não deu tempo.
Alguns percalços com o orçamento -R$ 4,5 milhões destinados pelas secretarias estadual e municipal de Cultura- atrasaram as obras. Com a previsão de entrega postergada para o primeiro semestre de 2010, o veterano Zé Luiz viu sua rotina agitada reduzida a alguns minguados cafezinhos, servidos apenas quando alguma visita aparece.
O imponente saguão da sede, tombada neste ano como patrimônio histórico do Estado, está coberto de poeira. Suas salas, projetadas pelo arquiteto francês Jacques Pillon e repletas de móveis coloniais, quadros e tapeçarias, andam quase desertas. Mas, mesmo desalojada, a academia não suspendeu os encontros semanais às quintas-feiras, que costumam ser frequentados por 15 de seus 40 membros vitalícios.
Em vez disso, os imortais se valeram do pretexto para saracotear por aí. Trocaram as reuniões circunspectas por visitas, de ares mais festivos, a uma série de instituições. Nos últimos meses, passaram pela Casa das Rosas, pelo Museu da Língua Portuguesa, pela sede da TV Globo.
"Estávamos isolados, então provoquei alguns lugares a nos receber", brinca o presidente Nalini, 63.
Donas do jogo
Na semana passada, às vésperas do centenário, estiveram no Centro de Treinamento do São Paulo, onde foram homenageados pelos dirigentes do clube.
Tão logo sabem da sua chegada, os acadêmicos se alvoroçam e acorrem à porta para recebê-la. É a primeira vez, desde que fraturou o fêmur em julho, que Lygia Fagundes Telles, 86, comparece a uma das sessões externas da APL. Apoiada em uma bengala, ela caminha muito à vontade entre os colegas, enquanto recebe, aqui e acolá, paparicos e perguntas sobre seu estado de saúde.
Apesar de ainda estarem em minoria -apenas seis cadeiras na academia são ocupadas por mulheres-, elas são o centro das atenções de seus confrades. Também saudada efusivamente, Ruth Guimarães, 90, não falta a nenhuma das reuniões. Uma vez por semana, a folclorista enfrenta uma longa viagem: "Quatro horas para vir, quatro para voltar".
Vem de Cachoeira Paulista (212 km da capital), só para comparecer. Difícil acreditar que, 40 anos atrás, quando seu nome foi cotado pela primeira vez para a instituição, Ruth não queria saber de ser imortal. "Achava que não tinha tempo para a academia", conta, enquanto almoça ao lado de uma moça, Rovena Botelho, que ela apresenta como "minha filha número sete".
Mãe de nove filhos, Ruth fez malabarismos para conciliar as atividades como professora e jornalista -escreveu crônicas para a Folha durante 14 anos- ao trabalho como escritora e tradutora. Só quando a vida ficou mais tranquila, concordou em concorrer ao posto. Em junho do ano passado, foi a última mulher a ser eleita para a APL. "Mulher, negra e pobre", ela completa. "Primeira e única."
A escritora é discípula de Mario de Andrade, que a introduziu nos estudos do folclore e da cultura popular, mas, na academia, quem ocupa a cadeira que pertenceu ao autor de "Macunaíma" é um novo membro.
Recém eleito, o maestro Julio Medaglia, 71, ainda não tomou posse. Deve fazê-lo na próxima quinta-feira e já tem pronto o discurso. Primeiro, como manda a tradição inspirada nos ritos da Academia Francesa, irá saudar seus antecessores na vaga de número 3. Em seguida, pretende discorrer sobre a crise da cultura em meio ao delírio tecnológico do século 21. "Ao lado de intelectuais vanguardistas, certamente será possível criar propostas para a cultura brasileira", ele diz.
'Circo itinerante'
A opinião parece unânime. Questionados, os acadêmicos sempre apontam a instituição como um lugar de reflexão sobre temas filosóficos, literários e históricos. A maneira de conduzir esse processo, no entanto, tem provocado polêmica entre os membros.
Não é todo mundo que vê com bons olhos as recentes mudanças na rotina da APL nem os encontros que não seguem a liturgia e os procedimentos da casa. "Isso não é uma evolução, é um factoide", aponta Mário Chamie, eleito em 1992, mas frequentador da casa desde a década de 1970. Ainda que não exista uma oposição organizada, o poeta acredita dar voz a um grupo de descontentes silenciosos.
Defende que as reuniões externas são inócuas e que, por trás do rótulo de renovação, a academia amarga uma crise profunda.
"O retrocesso está maquiado em uma fisionomia risonha." Segundo ele, nos últimos seis anos, rarearam as discussões de questões literárias e a produção de publicações da instituição. "Nesses encontros, só acontecem brindes e conversas fúteis. A academia foi transformada em um circo itinerante." O presidente José Renato Nalini rebate: "Queremos abrir a academia e nos aproximar dos jovens. Promover visitas monitoradas e concursos literários".
A despeito das transformações, saudadas ora como evolução, ora como declínio, alguns acreditam que a academia continua essencialmente a mesma. Pelo menos é assim que pensam dois dos mais antigos personagens da história da instituição: Paulo Bonfim, membro decano, e Izabel Moreira, funcionária há 40 anos.
Aos 82 anos, a secretária Izabel não pensa em se aposentar. Anda ansiosa pelo retorno dos acadêmicos, "as coisas estão um pouco paradas". Mas se anima a falar quando o assunto é a eleição para a cadeira 25. É ela quem recebe as inscrições dos aspirantes, prepara as cédulas e acompanha o ritual de votação.
Marcado para o início de 2010, o pleito deve preencher a vaga deixada pelo médico Pedro Kassab (pai do prefeito Gilberto Kassab). Entre os concorrentes, a escritora Tatiana Belinky. A comoção em torno da escolha dos novos imortais tem uma explicação. "Quando estamos completos somos tratados com certa indiferença", diz o presidente Nalini. "É a morte que movimenta a academia."
Eleito em 1963, o poeta Paulo Bomfim, 83, usa palavras simples para descrever a razão para a estabilidade dos costumes da casa. "A academia permanece a mesma. É o lugar de preservação das tradições paulistas." Ele acrescenta que é favorável às controversas reuniões fora da sede. "Tornam a academia mais popular. Mais gente poderia conhecer nossa biblioteca, uma das mais importantes da cidade."
Em busca do leitor perdido
Nas estantes da academia estão guardados cerca de 100 mil títulos. Entre eles, livros raros, como uma edição de "Os Lusíadas", de 1572, e também uma coleção de manuscritos com cartas preciosas, como a escrita por dom Pedro 1º a marquesa de Santos. Apesar de aberto ao público, o acervo ainda é pouco procurado.
A bibliotecária Maria Luiza de Souza Lima, 73, porém, já percebe uma mudança de comportamento. "Antes, 95% do meu trabalho era para os acadêmicos. Atualmente, os pesquisadores externos já respondem por metade das consultas."
Quando o restauro for concluído, no ano que vem, o intuito da direção é estreitar ainda mais esse contato com os paulistanos. "Não vamos apenas recolocar o forro no auditório. Vamos abrir esse espaço para a comunidade", comenta Alessandra Trindade, coordenadora do projeto de restauração. A ideia é realizar conferências, cursos e peças de teatro.
A proposta, que ainda está captando recursos, deve incluir também um espaço museológico, com exposições interativas e monitores digitais nos quais será possível consultar a trajetória de todos os acadêmicos. Também nesse caso, Mário Chamie questiona a eficácia de algumas iniciativas.
"Vão colocar um computador para pesquisarem quem é Monteiro Lobato? Em casa, pela internet, é possível descobrir mais. Os recursos tecnológicos estão sendo usados de maneira pré-industrial."
Controvérsias à parte, Lygia Fagundes Telles, imortal também da Academia Brasileira de Letras, aponta que a conquista de novos públicos é justamente o maior desafio da instituição. "Alguns anos atrás, escrevi que havia três espécies em processo de extinção no Brasil: a árvore, o índio e o escritor. Hoje, porém, não é mais o escritor que está definhando. O país está cheio de autores. A nossa luta agora é para recuperar o leitor."
RAIO-X Nome >> Academia Paulista de Letras
Inauguração >> 27/11/1909 (em noite de gala no Conservatório Dramático Musical)
Fundador >> Joaquim José de Carvalho
Onde fica >> largo do Arouche, 312/324, Centro
Funcionários >> nove
Fonte de renda >> cerca de R$ 50 mil, que recebe pelo aluguel dos 13 andares superiores da sede para a Secretaria de Estado da Educação
Jetom >> cada membro da academia recebe R$ 300 por sessão
Imortal mais jovem >> Gabriel Chalita, 40
Imortal mais velho >> Milton Vargas, 95
Imortal com mais tempo de casa >> Paulo Bomfim, desde 1963
Onde saber mais >>
www.academiapaulistadeletras.org.br
Publicado na Revista da Folha (29/11/2009)
http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf2911200905.htm