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Autor Tópico: Reduto de intelectuais corre risco de fechar  (Lida 1289 vezes)
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Tatiane Cornetti
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« : 07/Julho/2009, 11:15:13 am »

Reduto de intelectuais corre risco de fechar
Edison Veiga

Com uma antiga e pesada mobília, o bar tem cara de museu. Nas paredes, quadros originais de Alfredo Volpi (1896-1988), Clóvis Graciano (1907-1988) e Aldemir Martins (1922-2006), entre outros. Escondida no centro de São Paulo, na sobreloja do bloco C de um condomínio comercial no número 324 da Avenida Ipiranga, a sede da Associação dos Amigos do Museu de Arte Moderna é chamada de Bar do Museu. "Hoje somos um clube quase sem sócios, apenas uns cinco ou seis", admite a secretária aposentada Clarice Berto, de 64 anos, presidente da agremiação desde 2001. "Todos morreram ou, pela idade, não frequentam mais."

Verdade é que o bar, que já foi reduto da intelligentsia paulistana, corre risco de extinção por outro problema. O atual síndico do prédio, Edney Cordeiro, decidiu comprar briga com o espaço. Em 2006, sua gestão aprovou, em assembleia, norma que proíbe a entrada de visitantes no prédio a partir das 21h. "Isso reduziu o movimento do bar, que é o que mantém a associação. No fim do ano passado precisamos demitir nosso garçom, que estava conosco há 31 anos", conta Clarice. Há dois meses, novo golpe: agora todo o prédio precisa deixar de funcionar à meia-noite. E nada pode abrir aos sábados. "Estamos perdendo tudo", desabafa.

Após insistentes recados deixados pela reportagem na administração do condomínio, o síndico autorizou que seu assessor jurídico, o advogado Lucas Evangelista Campos, esclarecesse a situação. "O condomínio tem o direito de determinar restrições de horários de funcionamento", afirma. "Trata-se de uma questão de economia doméstica." O caso tramita em juízo. Pesa contra a associação uma enorme dívida de taxas condominiais, de cerca de R$ 30 mil. "O imóvel pode ser leiloado para pagar essa dívida", diz o advogado.

HISTÓRIA
A associação surgiu em 1948, quando o industrial e mecenas Ciccillo Matarazzo (1898-1977) reuniu um grupo de amigos intelectuais com o objetivo de criar um museu de arte em São Paulo. A primeira sede funcionou na Rua Sete de Abril, contígua ao próprio museu - que dez anos mais tarde foi transferido para o Parque do Ibirapuera. Ali foi discutida a criação do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1948 - o produtor teatral Franco Zampari (1898-1966) era frequentador.

Nas mesas do bar compareciam com assiduidade os artistas plásticos Aldemir Martins, Alfredo Volpi e Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), o cantor Sílvio Caldas (1908-1998), a escritora Lygia Fagundes Telles, o historiador e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977) e os políticos Ulysses Guimarães (1916-1992) e Jânio Quadros (1917-1992).

Artistas costumavam doar quadros próprios para a instituição, dando origem ao rico acervo preservado até hoje. Sílvio Caldas presenteou a associação com dois violões. Um deles está na parede. "O outro eu empresto para quem quiser tocar", garante Clarice.

Em 1978, os associados cotizaram-se para que o grupo tivesse sede própria. Desde então, ocupa a sobreloja do Edifício Investimento, na Avenida Ipiranga. A vocação de difusão artística e cultural é mantida não só pelo rico acervo permanente como pelas exposições temporárias - desde 2005 foram 25 mostras, com curadoria do artista plástico Eurico Lopes. "Privilegio o caráter experimental", afirma. Até agosto, fica em cartaz ali ...E A Cidade, com obras de Andréia Lucena e Lumy Maeda.

Ciente da importância histórica do local, uma nova geração de artistas e produtores culturais tem se esforçado para movimentar o bar. "É um símbolo de São Paulo, por isso procuramos fazer aqui boa parte de nossos encontros", afirma o novelista Leandro Barbieri, de 24 anos, que gravou no bar duas de suas novelas - Nos Tempos da Garoa e Virados Pra Lua, ambas exibidas pelo site www.spetaculos.com.br.

Leandro e um grupo de colegas resolveram buscar algum tipo de ajuda. Por meio do vereador Gilson Barreto (PSDB), foi encaminhado à Secretaria das Subprefeituras um pedido de auxílio ao reconhecimento do valor histórico do espaço. Por enquanto, eles aguardam. "Por mim, o Leandro seria o nosso próximo presidente", derrete-se Clarice, que enxerga nos jovens a esperança de que o Bar do Museu não seja obrigado a fechar as portas.



Publicado no Estadão (06/07/2009)
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