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Autor Tópico: Revista da Folha : ( SP à primeira vista )  (Lida 267 vezes)
Tatiane Cornetti
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« : 24/Janeiro/2010, 12:47:56 »


( SP à primeira vista )


Mergulhos no Tietê
por Benedito Ruy Barbosa,
novelista, 79

"O trem saiu da pequena Vera Cruz às seis da tarde do domingo e chegou a São Paulo às sete da manhã de uma segunda-feira de novembro de 1947. Deixei o vagão, sentei na frente da estação da Luz, e fiquei horas ali, olhando a cidade.

Minha primeira casa foi um cubículo dentro do Esporte Clube Floresta, porque eu tinha um primo que morava lá. Meu quarto tinha dois metros por um. Minha roupa ficava dependurada nos pregos da parede. Mas isso não importava para um jovem de 17 anos, órfão de pai, que dava duro para ajudar a mãe e os irmãos que continuavam no interior.

Apesar de trabalhar muito, era feliz. Levantava cedinho, botava o calção e ia descalço mergulhar no Tietê. Imagine que dava para pular da ponte. Hoje não há mais nada disso porque esses imbecis derrubaram as matas ciliares.

Era uma outra cidade. O Carnaval se fazia na avenida São João... uma beleza. De vez em quando, mesmo porque nem tinha dinheiro para isso, ia conhecer as mulheres da região do baixo meretrício no Bom Retiro. O Cine Metro era outro lugar onde batíamos ponto. A gente saía de lá e parava em um barzinho da Ipiranga para comer salada de frutas.

No inverno fazia 4º C e aquela chuvinha fininha... Tanto que minha primeira compra foi uma capa italiana de chuva, daquelas de gabardine. Achava bonito sair do trabalho e sentir a garoa que batia no ombro."


Na garupa
por Daiane dos Santos,
ginasta, 26

"De mudança, eu cheguei a São Paulo em 2008, depois da Olimpíada. Antes, quando eu morava no Rio Grande do Sul, vinha passar férias na casa dos meus tios, em Taboão da Serra. Como meu primo era motoboy, conheci a cidade inteira na garupa. Adorava ir junto fazer as entregas, e foi assim que eu vi os pontos turísticos de São Paulo pela primeira vez.

Hoje, ainda costumo pegar carona na moto do meu namorado. Sinto que o trânsito está mais perigoso, as pessoas mais estressadas. Por isso, neste ano, quero botar a minha bicicleta na rua. Pedalar de casa, em Pinheiros, até o clube, que fica na Faria Lima. Vai ser mais rápido do que ir de carro.


Frio da civilização
por Tom Zé,
cantor e compositor, 73

"Era 11 de agosto de 1965. No avião, vim com Caetano, Bethânia e Gal para participar do Arena Canta Bahia, que o Augusto Boal estava organizando. Diziam que eu ia pegar 15º C de dia e -3º C à noite. Vim preparado para neve e encontrei um calor absurdo. No primeiro dia, lembro da praça Roosevelt, enorme, só asfalto.

Subia do chão um vapor que fazia a visão embaçar. Quando esfriou, foi de verdade. Com a roupa que vestia na Bahia, quase congelava. Caetano me ensinou a botar a mão para fora da janela para ver se estava frio. Aquilo que era sentimento de estar na civilização!

Anos depois, declarei meu amor à cidade. Saí de casa e, na alameda Barros, li a manchete do 'Notícias Populares': 'Prostitutas invadiram o centro da cidade'. Tremia de frio, comecei a tremer de emoção. Voltei e escrevi 'São São Paulo'.

Como me falavam que o povo daqui era bairrista, fiquei morrendo de medo de divulgar a música. Tinha pesadelos em que corriam atrás de mim e eu fugia, com uma roupa de pagão. Ganhei o festival com a canção e não arredei mais o pé desta cidade."


Um centro chique [/b]
por Emanoel Araújo,
artista plástico e diretor do Museu Afro Brasil, 69
Ilustrações Graphorama
 
"Um pedaço da Augusta, a Paulista e o centro. Naquela época, em 1964, esta foi a cidade que eu encontrei. Ainda havia o Mappin, a Mesbla, o comércio chique em volta da Barão de Itapetininga e da 7 de Abril e as galerias de arte, todas ali no centro.

Não sei se eu era muito jovem, mas sentia que a cidade, apesar de cosmopolita, ainda tinha um ar provinciano, que me lembrava a Bahia... Os encontros nas galerias, o bate-papo na livraria Cosmos, no final da tarde. Todo mundo se via, se encontrava.

Fui ficando, ficando e fiquei... Fiquei na Bela Vista. É o bairro com o qual mais me identifico: boêmio, baiano, africano. Tem a Vai-Vai, o bolo gigante para comemorar o aniversário de São Paulo, a festa da Achiropita. Tem casa, prédio, feira livre. Quem nasce na Bahia nunca deixa de ser baiano, mas São Paulo agora é minha terra."


Calor não tá pra peixe
por Tsuyoshi Murakami,
chef, 41

"Antes de vir para São Paulo, em 1994, morava em Barcelona, uma cidade em que as estações do ano são muito bem definidas. Por isso, chegar foi complicado. Tive que me acostumar com o calor e com os efeitos dele nos ingredientes da minha cozinha. O peixe daqui tem outro sabor. Na Espanha, o mar é mais frio, o peixe é mais firme.

Por outro lado, muita coisa mudou nesses 15 anos. Quando cheguei, ainda estava na moda aquele vinho doce, da garrafa azul. Agora, o paulistano se sofisticou gastronomicamente. No meu restaurante em Moema, por exemplo, contratamos uma sommelière de saquê."


De bairro em bairro
por Zeca Baleiro,
cantor e compositor, 43

"Saí do Maranhão com a Solange, minha mulher à época, num Fiat Uno abarrotado de coisas. Passamos 20 dias na estrada, visitando os amigos pelo caminho. Quando chegamos, fomos morar no Jaguaré.

Depois morei na Aclimação, no Sumarezinho e na Pompeia, em vários endereços, na Vila Madalena e no Alto de Pinheiros. Os primeiros dias foram difíceis. Fazia muito frio e as economias iam se acabando sem perspectivas imediatas de trabalho. Mas fizemos grandes amigos aqui e resistimos.

Entre 1993 e 1995 dividi um apartamento com Chico César na rua Heitor Penteado. Era uma zona, vivia cheio de músicos, cantoras, compositores e malucos em geral.

Tudo aqui era diferente de São Luís. Lá, ainda se podia desfrutar de confortos típicos de cidade pequena, como almoçar em casa, beber uma cerveja antes do almoço na praia, tirar uma boa sesta antes de voltar ao batente.

São Paulo, em 1991, já era megalópole, embora menos caótica e populosa. A Vila Madalena ainda guardava aquela aura boêmia brejeira, malandra, diferente do ar "profissional" que tem hoje. E o trânsito, embora já parecesse infernal, não era nem sombra do atual. A vida deu muitas voltas. Casei de novo e tive dois filhos paulistanos, que adoram a cidade e não cogitam trocar este purgatório por nenhum paraíso."



Publicado na Revista da Folha (24/01/2010)
http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf2401201012.htm
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