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Autor Tópico: Por onde andas? Revista da Folha S. Paulo (16/03/2008)  (Lida 6237 vezes)
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Tatiane Cornetti
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« : 16/Março/2008, 11:12:40 pm »

Por onde andas?
por Gustavo Fioratti

A Revista convidou cinco paulistanos para fazer o test-drive das calçadas da cidade. Passaram pela avaliação desde locais reformados, como a rua Oscar Freire, a outros que ainda são canteiro de obras, como a avenida Paulista. O resultado mostra que os 260 km refeitos pelo poder público ou em parceria com a iniciativa privada, em três anos, ainda são insuficientes para um caminhar sem acidentes.

Caminhar por São Paulo não é lá o programa mais agradável do planeta. Por toda a metrópole, bem rente ao meio-fio e suas calçadas, há um rastro visível do problema: desníveis, degraus, buracos e falhas de projeto. A "culpa" não pode ser debitada apenas na conta da geografia acidentada, cheia de subidas e descidas. Também não é só da prefeitura. É um problema sinuoso que esbarra na esfera entre o público e o privado. De quem é a calçada?

É nesse terreno movediço que reside uma das maiores questões urbanísticas da atualidade, tratada no ano passado pela Bienal de Arquitetura de São Paulo. Afinal, quem responde pela manutenção de um lugar que é ao mesmo tempo público (está na rua) e privado (encarado como extensão da própria casa). É o governo ou é o dono do lote?

"Esse é o ponto nevrálgico. Vão longe os conflitos referentes a espaços usados por todos mas que estão sob guarda de um proprietário", diz Pedro Cury, curador das três últimas Bienais de Arquitetura de São Paulo. "As calçadas não deveriam serem todas padronizadas. Seria monótono. Mas a prefeitura tem, sim, de colocar regras, e os munícipes, de se adequarem a elas."

Erros de projeto
Por lei, os passeios estão sob responsabilidade do dono do lote à sua frente. É quem responde por manutenção, reforma e erro estrutural. Após a aprovação, em janeiro, da lei nº 14.675, proposta pela vereadora Mara Gabrilli (PSDB), as multas se tornaram mais altas. Podem chegar a R$ 1.000.

Alguns dos erros cometidos em projetos de calçadas são a ausência de rampas para deficientes e o nivelamento do passeio com a porta do lote, quando a entrada é que deve se adequar à rua. "Se 10% das calçadas da cidade fossem melhorados, 90% dos problemas de acessibilidade estariam resolvidos. Nesses 10% se concentram supermercados, cinemas, bancos etc.", diz a vereadora, que é cadeirante.

O que tornou a ferida dos passeios mais exposta é que a Prefeitura de São Paulo, nos últimos dois anos -e com mais intensidade agora, nos últimos meses da gestão de Gilberto Kassab (DEM)- decidiu remover ataduras e tratar as calçadas doentes. O resultado são 260 km de calçadas refeitas em três anos e a promessa de mais reformas. De 2005 a 2007, foram investidos R$ 55 milhões dos cofres municipais.

Acesso a todos
O programa "Passeio Livre" faz uma aposta em favor da padronização, mas o eixo central é conforto dos pedestres e acessibilidade de grupos especiais. "Deve-se garantir o acesso a toda a população, removendo barreiras físicas: postes, bancas de jornal, lixeiras, vasos e objetos colocados de forma irregular", diz Andrea Matarazzo, secretário das Subprefeituras. Ele acredita que, dando o pontapé inicial, pode-se conseguir esboçar um "novo pensamento urbanístico". "Queremos criar uma cultura em que a acessibilidade se torne implícita a qualquer projeto", afirma. "Em termos de custos, não há diferença entre uma calçada correta e uma irregular."

Algum eco dessa iniciativa, ainda que tímido, pode ser detectado em pontos de São Paulo. Além das já conhecidas parcerias entre a prefeitura e organizações privadas (como as associações de lojistas da Oscar Freire, da João Cachoeira e da Teodoro Sampaio) pela melhoria das calçadas, moradores e pequenos comerciantes espalhados pela cidade também compraram a idéia.

Antonio Buonerba, 68, proprietário do restaurante Jardim di Napoli, na Vila Buarque, aproveitou que estava refazendo o calçamento de seu estabelecimento (com o mesmo bloco usado na rua Augusta) para reformar a frente de dois lotes vizinhos. Um terceiro edifício seguiu o exemplo e também trocou o piso. "O ideal é que todo o quarteirão tomasse uma decisão coletiva", diz Antônio.

Para avaliar as calçadas da cidade, a Revista convidou cinco pedestres para um test-drive dos passeios de diferentes bairros. Uma mãe tentou empurrar o carrinho do bebê pelas ruas íngremes da Vila Madalena. Um deficiente visual se aventurou pela avenida Paulista, testando o novo e o velho calçamento. Duas jovens se equilibraram em saltos para bater perna nos Jardins. Um cadeirante venceu barreiras no Mandaqui, zona norte da capital. Ao final do périplo, pode-se concluir que andar pela cidade ainda é um exercício de paciência e atenção.

De salto alto
As irmãs gêmeas Luciana Inno, 30, e Adriana Tenório, 30, proprietárias do bar Figa, contabilizam juntas dez belos tombos pelas ruas da cidade e dois pares de sandálias perdidos. O salto alto, artigo indispensável para a dupla, não seria o único culpado. É mais um complicador quando elas resolvem bater perna pela região da Oscar Freire.
Em uma tarde ensolarada, a dupla aceitou o convite para dar uma volta pelas ruas dos Jardins que se converteram em shopping à céu aberto. Luciana, com um salto de 7 cm, e Adriana, com salto de 10 cm, não tiveram problema para "flanar" pela Oscar Freire, com suas placas de concreto instalados por uma parceria entre a prefeitura e os lojistas (nota dez, segundo elas). A revitalização custou R$ 8,5 milhões, sendo que R$ 4,5 milhões foram pagos pela prefeitura, R$ 3 milhões por uma operadora de cartão de crédito e R$ 1 milhão, pelos lojistas.

Ao deixar o trecho cuja reforma foi finalizada em 2006, elas precisaram de muito mais jogo de cintura e atenção. O velho piso da rua Bela Cintra, semelhante a outros do bairro, não passou no teste. "As calçadas vão ficar pra recuperação", decretou Adriana, que não desgrudava os olhos do chão, cheio de fendas. As crateras nos pisos de mosaico português são "assassinos de sandálias", diz. Os de pedra são "completamente escorregadios", atesta Luciana. Foram os dois tipos mais encontrados no passeio.

Entre poças e orelhões
Bengala em mãos, Ismael Mo-reira, 43, deficiente visual, enfrentou o desafio de andar metade da extensão da avenida Paulista sem auxílio, passando inclusive pelos trechos em reforma -os cerca de 3 km da via símbolo de São Paulo, segundo afirma o secretário Andrea Matarazzo, ficam prontos em junho, com seu novo piso de concreto moldado in loco, nas cores cinza claro e cinza-chumbo.
Ismael começou próximo à alameda Campinas, a exatos dois quarteirões de uma grande poça. Depois de ter estancado diante de vasos, mesas de bar, camelôs, orelhões e bancas de jornal, ele ouviu alguém gritar:

"Olha a poça". Congelou, prevenindo-se contra um dos maiores problemas enfrentados por deficientes visuais. O piso de pedras portuguesas, marca do paisagismo dos anos 70, havia afundado e estava repleto de água. "A bengala detecta tudo, menos orelhões, que têm pés muito finos, e poças d'água." Por conta dessas falhas, é comum, entre deficientes visuais, chegar aos seus destinos com os pés totalmente molhados e/ou com um galo na cabeça.

Conforme foi se aproximando da rua Augusta, passando pelos pontos em que as obras da prefeitura ainda não foram encerradas, Ismael classificou o passeio como "um verdadeiro pesadelo". Caminhos estreitos, desvios inúmeros, muita gente se espremendo por causa do canteiro. Atrás dele, em alguns pontos, formava-se uma fila de pedestres, impacientes por fazer uma ultrapassagem.

Já na parte nova, a impressão foi outra. "Agora estou no paraíso", disse. Liso, largo e com piso tátil (faixa de borracha retilínea que sinaliza trajetos). Estão lá as ferramentas essenciais para esse grupo específico. "Vai ser bem bom passear pela Paulista se tudo ficar desse jeito."


Piloto de carrinho de bebê
A produtora Mariana Zanotto, 28, amava andar por São Paulo. Costumava ir a pé ao trabalho, ao cinema, às compras. Até que sua filhota nasceu. "Parei de sair, porque não me dá mais prazer. Empurrar o carrinho pelas calçadas é um pesadelo", diz. "Uma das piores experiências da minha vida foi ir do Alto de Pinheiros até o parque Villa-Lobos com o bebê, o que, em tese, deveria ser bem fácil", avalia. Na Vila Madalena, o test-drive foi feito em várias ruas. Os trechos críticos foram as subidas e descidas da Harmonia e da Purpurina. Em um ponto, na Purpurina, não havia opção de rampa ao lado dos degraus feitos para compensar o declive da rua. Mariana não precisou de ajuda. "Foi fácil, já peguei calçadas muito piores. Mas também não são trechos que convidam a um passeio, mesmo nos pontos planos. O carrinho trepida muito", analisa. Para Mariana, o ponto mais difícil do circuito percorrido é o piso de argamassa ou cimento, aquele cinzão, em geral cheio de fendas, buracos e rachaduras provocadas pelas raízes de árvores. É um material frágil, bastante suscetível a chuvas e ao calor, usado com freqüência por conta de seu baixo custo.

Sobre rodas
O halterofilista Alexander Whita-cker, 38, conseguiu bater o recorde parapanamericano de supino na categoria até 67 kg corporal, levantando 192,5 kg. Mas três quadras da avenida Engenheiro Caetano Álvares, zona norte, incluindo trecho recém-reformado, foram suficientes para cansá-lo. "Já estou sentindo meu ombro esquerdo, porque a calçada tem um declive lateral, em direção à rua. Uma roda fica mais alta do que a outra", disse, no fim do trajeto de 20 minutos.
O início foi em frente a uma calçada do McDonald's, regular. Não houve problemas para atravessar a rua. Alexander subiu no calçamento novo e o avaliou como "estreito demais". Próximo à esquina da rua Voluntários da Pátria, um totem da CET, colocado bem no meio do passeio, quase impediu a passagem do cadeirante. "Uma cadeira maior não passa aqui", avaliou.

Em relação à regularidade do piso, o teste deu positivo. "Não trepida muito", disse. Mais à frente, onde o calçamento novo acaba, havia rampa para descer a rua, mas a calçada do lado oposto não estava provida com o mesmo aparato. "Como eu faço para descer aqui e subir na calçada de lá? Essa rampa é inútil", desferiu. O ponto mais crítico foi um vão formado entre o piso e uma tampa de bueiro, onde a roda da frente ficou emperrada. "Preciso de ajuda, não consigo sair sozinho."

Mesmo que carros estacionados sobre calçadas, pisos malfeitos e falta de estrutura urbana ainda reprimam o ir-e-vir desse grupo, o halterofilista vê melhorias. "Há 14 anos, quando virei cadeirante, era tudo muito pior. Praticamente não dava para sair de casa", diz.

Piso da discórdia
Herdado de planos urbanísticos de cidades européias, como Berlim e Amsterdã, os blocos de concreto intertravado (que são fixados por encaixe) migraram para as ruas paulistanas. A transposição, no entanto, foi problemática, já que se trata de um tipo de calçada mais adequado para áreas planas e não para regiões em declive, como as ruas Augusta e Teodoro Sampaio.
Assentados em cama de areia, sem junta de argamassa, os bloquinhos foram feitos para ficarem soltos. Só que, em dias de chuva, a areia é levada ribanceira abaixo. "Eu avisei a Subprefeitura de Pinheiros, em reuniões com a Samorcc [Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro Cerqueira César], de que não era o piso ideal. Eles não ouviram e, na primeira chuva, os bloquinhos rolaram", diz o arquiteto José Roberto da Costa Lima, 63, sobre a reforma da Augusta.

As autoridades reconhecem o erro. "Não foi previsto, mas aconteceu", disse o engenheiro Ângelo Mellio, coordenador de obras das subprefeituras. "A partir de agora, o padrão será o piso da Paulista, do concreto in loco. Esse, sim, se mostrou uma boa opção", completou. A vereadora Mara Gabrilli (PSDB) também questiona o acabamento da Augusta. "Não ficou com cara de novo", diz. "O blocos estão irregulares. E se alguém tropeçar? Quem vai responder? O lojista?", questiona Célia Cândida Marcondes Smith, presidente da Samorcc.

A reforma passou então por nova reforma, já que a subprefeitura mandou refazer parte da obra da Augusta no ponto de maior declive, entre as alamedas Santos e Itu. Trocou a cama de areia por cimento.

O piso ficou mais estável, mas perdeu suas melhores qualidades: os blocos não podem mais ser retirados e recolocados sem quebrar, o que facilitava obras de manutenção. A água da chuva também não escorre mais por entre as fendas, o que tornava a opção ecologicamente correta.

Como as placas são soltas, surgiram também os ladrões de calçadas. Em vários pontos dos Jardins, blocos de concreto foram roubados. A reforma não resistiu ainda à ação de lojistas, que retiraram o piso para fazer manutenção mas recolocaram as unidades com o desenho errado.

Autora da "bíblia" do urbanismo moderno, "Morte e Vida nas Grandes Cidades", Jane Jacobs escreveu: "Calçadas têm de ser respeitadas como o único espaço vital e insubstituível para cidades seguras, para uma vida pública partilhada até para criarmos nossas crianças". Segundo ela, é possível reconhecer o perfil de uma cidade e de seus habitantes olhando apenas para os passeios públicos.



Publicado na Revista da Folha de S. Paulo (16/03/2008)
http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf1603200806.htm

« Última modificação: 30/Abril/2009, 10:10:48 am por Tatiane Cornetti » Registrado
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