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Autor Tópico: Em 30 pontos, conheça a história e os personagens que dão vida à maior rodoviári  (Lida 3810 vezes)
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Tatiane Cornetti
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« : 29/Abril/2012, 05:04:52 »

Em 30 pontos, conheça a história e os personagens que dão vida à maior rodoviária do país

Domingo, 9 de maio de 1982. Os 75 relógios da rodoviária do Tietê marcavam 4h30 quando o primeiro ônibus deixou o terminal, inaugurado na véspera como o maior da América Latina. Três décadas depois, mesmo com a perda de passageiros -nos últimos 20 anos, a queda foi de 44%-, o Tietê ainda embarca quase 11 milhões de pessoas por ano. No menu, 1.033 destinos, em 21 Estados e cinco países.


Esta foto e a da capa da revista não são montagens! Nos dois casos, levamos imagens do Arquivo Folha ao terminal Tietê e procuramos o exato local emque elas foramfeitas, nos anos 1980. Em seguida, posicionamos a imagemantiga até ela se encaixar perfeitamente na cena e fotografamos a sobreposição.

A criação da atual rodoviária tem origem nos problemas do terminal da Luz, sobrecarregado desde os anos 1960 e causa de engarrafamentos espetaculares. Assim, em 1977, o Metrô, com órgãos dos governos estadual e federal, elaborou um estudo para a construção do Tietê que previa também outros três terminais: Barra Funda, Penha e Pinheiros, sendo que os dois últimos nunca saíram do papel.

As obras começaram em janeiro de 1979 e, programadas para terminar em outubro de 1981, foram concluídas somente em maio do ano seguinte. Desde 1989, o Metrô, proprietário da rodoviária, mantém um contrato com o consórcio Prima, que, entre outras empresas, inclui a Socicam, responsável pelo Tietê até 2030.

Hoje acompanhada dos terminais Barra Funda, de 1989, e Jabaquara, de 1977, a maior rodoviária do país -não há fontes confiáveis que comprovem que ela continua como a maior da América Latina- pode ganhar mais parceiras. A prefeitura planeja erguer unidades em Itaquera (zona leste) e na Vila Sônia (zona oeste).

Ainda não se sabe se as novatas vão "roubar" destinos do Tietê ou dividir o embarque com ele. Nessa última opção, saídas para o Rio, por exemplo, ocorreriam em mais de um endereço na cidade.

Apesar de preverem perda maior ainda de passageiros para a rodoviária trintona, especialistas veem a iniciativa com bons olhos. "Os passageiros que moram nas regiões das novas rodoviárias embarcarão por lá", diz Horácio Augusto Figueira, mestre em engenharia de transportes pela USP.

Independentemente do desfecho, certo é que o Tietê ainda será por muito tempo uma minicidade, apresentada nas páginas a seguir por meio de números, dados históricos e depoimentos.

Boa viagem.
(COLABOROU LUCCA ROSSI)

01 - POR DENTRO
Terminal Rodoviário Tietê
Onde: av. Cruzeiro do Sul, 1.800, Santana, zona norte
Funcionamento: 24 horas por dia
Como chegar: estação Portuguesa-Tietê (linha 1-azul do metrô)
Terreno: 120 mil m²
Área construída: 54 mil m²

02- PARTIDAS
Os ônibus partem para 21 Estados, além de Argentina, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. O destino mais longe é a capital peruana, Lima -a viagem de cerca de 5.800 km demora quatro dias. O mais próximo é Mairiporã, na Grande SP, a 39 km do terminal.

03- OS NÚMEROS
62 empresas de ônibus, que atendem a 1.033 cidades
260 lixeiras
63 câmeras de segurança
320 pessoas trabalham com administração, operação, manutenção, limpeza e segurança
1.500 funcionários de lojas, restaurantes, empresas de ônibus e outros prestadores de serviços
150 atendimentos de emergência são realizados por mês

04- R$ 223.575.990
Foi a quantia gasta, em valores atualizados, na construção do terminal. Iniciadas em 19 de janeiro de 1979, as obras contaram com o trabalho de 1.245 homens em seu momento mais intenso. O Itaquerão, que prevê o triplo de área construída, terá cerca de 3.000 e tem custo previsto de R$ 820 milhões.

05- BABEL
Vários ajustes foram necessários após a estreia. As plataformas foram pensadas para ônibus dos anos 1970. "Mas o primeiro passo foi tentar que metroviários e empresas de ônibus falassem a mesma língua", lembra Luiz Alberto Fioravante, 62, então diretor.

06- APAGÃO
Na madrugada do dia 8 para o dia 9 de maio de 1982, na inauguração, os paulistanos ficaram da 1h50 às 4h sem ter como deixar a cidade de ônibus. A última partida da rodoviária da Luz, aposentada com a inauguração do Tietê, foi para o Rio de Janeiro.

07- RECORDE
O recorde de público foi na véspera do Natal de 1986, quando 110 mil pessoas saíram da capital por ali, por meio de 2.820 ônibus. O movimento foi 15% superior ao mesmo período de 1985. Logo depois, algumas linhas foram para o terminal Bresser, na zona leste.

08- TOP 5
Os piores problemas relatados por usuários à reportagem:
# 1 Poucas cadeiras na área de embarque
# 2 A comida é cara
# 3 Os banheiros estão mais sujos depois que voltaram a ser gratuitos
# 4 Mau atendimento
# 5 Falta vaga no estacionamento

09- Por CÉU e por TERRA
Compare a circulação de passageiros registrada em 2011:
Aeroporto de Guarulhos 30 milhões
Rodoviária do Tietê 21,9 milhões
Aeroporto de Congonhas 16,7 milhões

10- BAGAGEM EMOCIONAL
"Uma vez uma mulher chegou dizendo que ia se matar, se jogar debaixo do carro, porque o marido a tinha deixado. Eu disse: 'Vá para a casa do seu pai, guarde essas coisas lá, tome um banho, deite. No outro dia, Deus vai lhe mostrar o caminho'. E ela foi embora. Um mês depois, voltou e disse: 'Seu Pedro, eu vim lhe agradecer. O senhor me falou umas palavras que se encaixaram na minha cabeça. No dia seguinte, vi que tinha vários caminhos para seguir'. Aquilo me comoveu"
PEDRO VIANA DA COSTA, 75, trabalha há 53 anos como carregador de bagagem e está na rodoviária do Tietê desde a inauguração

11- ESTRUTURA
26 mil m³ de concreto. Equivale a metade da ponte Octavio Frias de Oliveira, que usou 58.700 m³
4.000 toneladas de ferro. Representa cerca de meia Torre Eiffel, que usou 7.300 toneladas
230 mil metros de cabos, a mesma distância de São Paulo a São Carlos, no interior

12- 1ª VEZ
"A primeira vez que vim de Goiás para São Paulo foi em 1984. Tinha feito uma reserva no hotel Minho, na avenida Duque de Caxias, que existe até hoje. Achava que ia chegar na rodoviária da Luz, que era perto do hotel, mas cheguei no Tietê. Estava sem dinheiro e fui para o hotel a pé. Tinha vindo entregar uma fita cassete na gravadora 3M"
ZEZÉ DI CAMARGO, 49, cantor

13- NO REPEAT
Na inauguração, enquanto políticos discursavam no palanque, a música "Amigo", de Erasmo e Roberto Carlos, tocou. Natural de Cachoeiro de Itapemirim (ES), o "rei", caso quisesse ir daqui para sua cidade de ônibus, teria à disposição somente uma companhia: a Itapemirim. A linha sai uma vez por dia, às 18h, e cada passagem custa R$ 123. Ao todo, a viagem dura 12 horas, suficientes para escutar a versão original de "Amigo" aproximadamente 216 vezes.

14- 15 DIAS E 15 NOITES
"Chegamos aqui no dia 1º de junho de 1991. Tava frio. Meu pai e minha mãe deixaram a gente num cantinho e a gente vivia do que o pessoal dava. Meu pai colocou dois cobertores no chão e a gente dormia lá. Quer dizer, mais cochilava do que dormia. Dava muita fome, tinha muito barulho. No outro dia, meu pai pediu para eu cuidar dos meus irmãos e saiu com a minha mãe para ver se achava algum lugar para morar. Depois de duas semanas, fomos para um barraco na favela da avenida Zaki Narchi [zona norte]"
JORGE CHAGAS SANTOS, 33, lutador de muay thai, morou 15 dias na rodoviária após desembarcar de Leme (SP)

15- SENHORES PASSAGEIROS
"Uma vez, uma senhora me perguntou onde era o desembarque. Mostrei e perguntei de onde vinha o ônibus que ela aguardava. Ela explicou que era do Amazonas, mas que ainda ia sair de lá. Eu falei: 'Senhora, está um pouco cedo então para ficar aguardando aí'. Ela disse: 'É que eu não vejo a pessoa há muito tempo, estou ansiosa e prefiro esperar'. Ela passou três dias no terminal"
ERALDO GOMES COSTA, 26, locutor e operador do controle central

16- CONVERSA MALUCA
"QAP, água marinha e turmalina efetuaram um 88 antes da grega."
Não se assuste se escutar um dos seguranças dizendo frases absurdas pelo rádio. Eles têm um código próprio para que usuários não entendam. A tradução: na escuta, namorado e namorada se beijaram antes da viagem.

17- Quem cuida
Desde 23 de janeiro de 1990, um consórcio privado é responsável pela manutenção do terminal, que pertence ao Metrô. O primeiro contrato, expirado em 2010, foi renovado por mais 20 anos. A companhia pública, no entanto, recebe valores pré-determinados:

Dez taxas de embarque por ônibus que parte da rodoviária
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25% da receita bruta do estacionamento
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25% da receita bruta de propaganda e aluguel de lojas
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25% da operação rodoviária (receitas de bilheteria, guarda-volumes etc.)
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18- EU E NARA LEÃO
"A lembrança mais bacana que tenho da rodoviária é quando a minha mãe vinha de ônibus do Rio e a Nara Leão ia comigo buscá-la. O Tietê era bem mais simples"
JERRY ADRIANI, 65, cantor

19- RONCO ALTO
"Tenho 75 anos e sou gordo, eu ronco pra caramba. Um dia uma mulher me deu um baita de um esporro no ônibus"
AGNALDO TIMÓTEO, 75, cantor e vereador, costuma ir de ônibus leito para o Rio às sextas-feiras

20- passageiros em QUEDA
Nas duas últimas décadas, com a redução dos preços das passagens de avião e a redistribuição de destinos para outros terminais, o Tietê perdeu passageiros:
EMBARQUES POR ANO
1991 - 19.399.155
2001 - 11.151.167
2011 - 10.892.778

21- preços em ALTA
A dupla formada por cafezinho e pão de queijo é, disparada, a mais pedida nas lanchonetes da rodoviária. Talvez por isso os preços estejam lá no alto. Veja a comparação com cafés chiques da cidade:

RODOVIÁRIA
CASA DO PÃO DE QUEIJO
Café: R$ 3,90
Pão de queijo: R$ 3,10
Total: R$ 7

ESTAÇÃO DA GULA
Café: R$ 3,50
Pão de queijo: R$ 3,90
Total: R$ 7,40

PANERIA
Café: R$ 3,50
Pão de queijo: R$ 3,90
Total: R$ 7,40

PELA CIDADE
PAIN DE FRANCE
Café: R$ 3,30
Pão de queijo: R$ 2,50
Total: R$ 5,80

SANTO GRÃO
Café: R$ 3,80
Pão de queijo: R$ 3,50
Total: R$ 7,30

SUPLICY
Café: R$ 5
Pão de queijo: R$ 3,50
Total: R$ 8,50

22- SOBRE RODAS
"Sou operador de máquina motorizada de limpeza, a 'motinha'. A primeira vez que andei foi emocionante, mas é fácil, é como andar de bicicleta. Toda vez que passo, as crianças dizem: 'Pai, olha lá, que legal!'"
SEBASTIÃO ADRIANO DE SOUZA, 44, operador de máquina motorizada de limpeza

23- PERDAS E DANOS
Vanessa Galdino, 24, é a responsável pela seção de achados e perdidos, que, no momento, abriga 15 bengalas e uma cadeira de rodas, entre muitos documentos e alguns livros. "Os funcionários daqui pegam emprestados para ler e depois devolvem", diz ela, que está lendo o "Manual da Separação", de Edson Marques, "só por curiosidade".

24- NO EMBARQUE
"Comecei a trabalhar na Luz, em 1964, e já fiz o embarque de muita gente famosa, como o Silvio Santos. Minha filha se casou com estrangeiro e mora em Paris. Já fui pra lá, mas prefiro ônibus a avião"
JOÃO CRUZ, 74, faz o embarque dos ônibus Cometa

25- SP x NY
Quando foi inaugurada, a rodoviária do Tietê foi alardeada como a segunda maior do mundo, atrás de Port Authority, concluída em 1950 em Nova York. A nossa tinha mais serviços:

Nova York (1950)
-1 barbearia
-35 relógios
-171 orelhões
-450 vagas de estacionamento
-31 guichês de venda de bilhetes

São Paulo (1982)
-1 barbearia
-75 relógios
-1.600 orelhões
-500 vagas de estacionamento
-84 guichês de venda de bilhetes

26- VIAJANTE PROFISSIONAL
"Passo aqui há 30 anos. Saí de Blumenau aos 18 e fiquei mais da metade da vida viajando. Já morei em todos os Estados. O Brasil tem uns 5.000 municípios, devo ter conhecido uns 4.000"
LUIZ VIEIRA, 48, construtor e artista plástico

27- Para LER
O que comprar para passar o tempo na rodoviária? Palavras cruzadas, é claro. "Quando comprei a livraria, 14% das revistas de palavras cruzadas de todo o Estado eram vendidas na minha loja", diz Heloisa Freitas, 59, sócia da maior revistaria do terminal desde 1997. Entre os livros, segundo ela, dois clássicos da ciência política estão sempre entre os mais vendidos: "A Arte da Guerra", de Sun Tzu, e "O Príncipe", de Maquiavel.

28- FORA DO AR
"A rodoviária é ótima. Os ônibus são calmos, nunca peguei um motorista louco. Coloco meu fone de ouvido, uso a tomada para o notebook e durmo"
PINKY WAINER, 56, artista plástica, trocou os aviões pelos ônibus na ponte Rio-São Paulo há três anos

29- MINICIDADE
Passageiros, visitantes e funcionários consomem, em média, por mês:
7 milhões de litros de água
682.219 kWh de energia
2.600 rolos de papel higiênico
650 litros de sabonete líquido
40 mil litros de detergente
24 mil cartões telefônicos
Fontes: Socicam, Metrô, Infraero, ANTT, Artesp, "O Livro Amarelo do Terminal" (Vanessa Barbara, CosacNaify, 2008) e reportagens publicada na época

30- RITMO
"Aprendi a tocar violão e baixo lá em Minas. Minha família é toda de músicos, aprendi só de ver. Passo bastante tempo no terminal. Vira e mexe trago meu violão e aproveito para acompanhar alguém que esteja tocando no piano que tem aqui"
OSVALDO DE ANDRADE, 75, músico aposentado



Ciborgues no comando
VANESSA BARBARA, COLUNISTA DA FOLHA

Distribuídos ostensivamente pelas plataformas da rodoviária, os relógios patrocinados pela Cia. do Terno parecem vigiar os vigias. O chão é lustroso, os coques das funcionárias bem presos e há um "mix comercial" de 78 lojas reluzentes, coloridas, entulhadas de anúncios e quinquilharias.

É o Tietê Station Center.

Na última década, a rodoviária Tietê tornou-se um "espaço limpo e seguro que se assemelha ao conceito dos aeroportos e shoppings", segundo release da Socicam (empresa que administra o terminal). Tudo é organizado e padronizado, os ônibus saem no horário, os lanches são caríssimos e é terminantemente proibido tirar fotos. Ninguém pode falar com os funcionários sem autorização prévia. Ao que tudo indica, a alta cúpula da Socicam teria sido substituída por ciborgues.

Ciborgues, como todos sabem, não têm coração, por isso a estação perdeu um pouco o calor humano e a graça. Suas tabacarias, perfumarias, cafés e LAN houses são proibitivas para a maioria dos usuários, que ficam com vergonha de tirar os sapatos para descansar os pés. Há menos chulé e mais óculos Ray-Ban, mais mensagens automáticas nos alto-falantes e menos salgadinhos de queijo grudados nas solas dos transeuntes.

Ainda que os ciborgues da Socicam tentem manter sob controle os elementos mambembes dessa estação comercial-cibernética, é possível encontrar gente furtiva lavando morangos no banheiro, longe das câmeras, puxando os cabinhos e resistindo à dominação robótica.

A Socicam é como esses avisos que a gente vê nos bebedouros e nos banheiros públicos: "Proibido encher garrafas", "Proibido lavar os cabelos" e "Proibido lavar marmitas". A empresa controla 45 terminais rodoviários pelo país (Brasília, Campinas, Rio de Janeiro) e 43 terminais urbanos como se fossem propriedade privada.

Temo que, no futuro, não seja mais permitido jogar conversa fora e tirar cochilo nos bancos. Os bancos, aliás, estão cada vez mais escassos, pois que incentivam a vadiagem, e logo será ilícito chegar cedo demais, entrar nas lojas para trocar uma nota de 20 e trazer comida de casa.

A rodoviária é uma cidade de pessoas que chegam e vão embora na mais perfeita ordem, e de outras que revolucionariamente ficam, tirando o cabinho dos morangos, feito membros da Resistência.

VANESSA BARBARA, 29, é autora de um livro sobre a rodoviária, "O Livro Amarelo do Terminal" (2008, Cosac Naify), vencedor do prêmio Jabuti de reportagem. Escreve na "Ilustrada" às segundas-feiras



Publicado na Folha de S.Paulo (29/04/2012

« Última modificação: 29/Abril/2012, 05:16:50 por Tatiane Cornetti » Registrado
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