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Autor Tópico: O novo Largo da Batata e os velhos erros de sempre  (Lida 6090 vezes)
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Jorge
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« : 27/Março/2014, 05:19:29 »


O  novo Largo da Batata...
...e os velhos erros de sempre


Por Jorge Eduardo Rubies
Presidente da Associação Preserva São Paulo



Projetar espaços públicos de qualidade é um desafio raramente enfrentado de maneira satisfatória por arquitetos, urbanistas e paisagistas modernos ou pós-modernos. Para cada praça ou parque projetado por um Burle Marx, gênio e mestre de renome internacional, temos dezenas de exemplos de retumbantes fracassos de público e crítica. Tomemos o exemplo da nova Praça da Sé, em São Paulo, um vazio urbano evitado pela população em geral, com exceção de trombadinhas e larápios. Ou o vale do Anhangabaú, outro deserto que costuma ser freqüentado apenas por skatistas - nada contra esse esporte, mas é um bom indicador do sucesso de um espaço urbano, já que por sua própria natureza, costuma ser melhor praticado em lugares com muito cimento e pouca gente.

Apesar dos seus muitos problemas, a idéia de uma intervenção radical da Praça da Sé ou do Anhangabaú merece ser descartada, em primeiro lugar porque tais lugares já estão incorporados, para o bem e para o mal, ao quotidiano e à paisagem dos habitantes da cidade, e principalmente porque uma eventual reforma muito provavelmente tornaria esses espaços ainda piores do que são, tal como aconteceu recentemente com a desastrada reconstrução da Praça Roosevelt, que na melhor das hipóteses pode ser considerada como um incompreensível desperdício de dinheiro público. Este artigo, no entanto, não trata da Praça Roosevelt, que será abordada em outra ocasião, mas sim de outra tragédia urbana recente em São Paulo: a reconversão do Largo da Batata.

Como quem não mora em São Paulo e mesmo muitos moradores da cidade não conhecem o Largo da Batata, cabe aqui uma descrição e um histórico sucinto:

O Largo da Batata está separado por apenas um quarteirão do Largo de Pinheiros, epicentro e local histórico da fundação do bairro do mesmo nome, que surgiu como um aldeamento jesuítico em 1560, pouco após a fundação da própria cidade de São Paulo. Antes disso até, o local, situado logo além da área de várzea do rio também chamado Pinheiros, constituía o entroncamento de diversos caminhos pré-coloniais, terrestres e fluviais, que ligavam o planalto de Piratininga e o litoral ao sul e ao oeste do Brasil e do continente sul-americano, sendo que desses caminhos o mais famoso era o lendário Peabiru das crônicas dos viajantes espanhóis e portugueses.

Mesmo situado nesta posição estratégica, o local permaneceu por séculos um acanhado núcleo semi-rural, povoado por caboclos e cafuzos, até as primeiras décadas do século XX, quando recebe as primeiras levas de imigrantes, sobretudo japoneses. O grande desenvolvimento se deu a partir de meados do século, quando da abertura de avenidas e de novas estradas, que seguiam o curso aliás desses antigos caminhos indígenas, e com a chegada de milhares de migrantes provenientes da região Nordeste. Grandes entrepostos comerciais, como a Cooperativa Agrícola de Cotia, se instalaram no Largo da Batata e diversas rotas de ônibus convergiram para o local, que se tornou o grande pólo comercial, de serviços e de transportes de todo o enorme trecho da região metropolitana a oeste do Rio Pinheiros, o qual engloba diversos bairros da capital e cidades vizinhas, uma área habitada por milhões de pessoas – o Largo da Batata representava assim para essa zona o mesmo que o igualmente devastado Largo 13, em Santo Amaro, representa para o extremo sul da região metropolitana. Esses são, em poucas linhas, quatro séculos e meio de história do centro do bairro de Pinheiros.

Pois bem, mesmo com essa importância e significado como pólo regional da cidade, muita gente não via o Largo da Batata com bons olhos. Alguns respeitáveis cidadãos de classe média que se dirigiam para os escritórios, clubes e shopping centers da região da Avenida Faria Lima - que até os anos 90 terminava no Largo e agora se estende por alguns quarteirões além – se sentiam incomodados com a vista dos vários inferninhos e com o cheiro de churrasquinho de gato que permeava o lugar. Elton Zacarias, homem forte do ex-prefeito Gilberto Kassab, resumiu perfeitamente tal sentimento com uma frase lapidar: "É nossa Quinta Avenida e desembocava em um terminal de ônibus a céu aberto".

Eis que há cerca de dez anos, o governo de Marta Suplicy, decide lançar um concurso de “reconversão” do Largo da Batata, com um júri composto por alguns medalhões da tecnocracia e da universidade pública paulistanas. A proposta vencedora apresenta trechos de difícil entendimento sem a ajuda de um lingüista, tais como "Aproveitamento das potencialidades existentes de maneira geral e em particular de imóveis e terrenos improdutivos para equipamentos e na busca da continuidade do espaço público." Os desenhos que acompanham o projeto também não esclarecem muito.

Mas, a julgar pelo resultado final, aparentemente o objetivo do projeto era arrasar o maior número de imóveis possível e deixar que o setor imobiliário se encarregasse do resto. Foram parar na caçamba, esse trambolho onipresente na atual paisagem paulistana, dezenas de antigos sobrados com comércio no térreo, galpões, graciosos predinhos dos anos 40 e 50 com três ou quatro andares, parte da malha urbana centenária do centro histórico de Pinheiros. O terminal de ônibus foi jogado para longe, com a conseqüente demolição de mais um pedaço do bairro para dar espaço ao novo terminal.

O resultado final é um gigantesco vazio urbano hostil, árido, opressivo e destituído de humanidade e de vida, que nos remete imediatamente a lugares barbarizados: Stalingrado, Hiroxima, Bagdá, são as referências que nos vêm à mente quando se passa pelo lugar. O desolador descampado pós-apocalipse que se tornou o Largo da Batata é tão inóspito que nem sequer os geralmente corajosos skatistas se atrevem a freqüentá-lo. Até mesmo aqueles cidadãos de classe média que tanto desprezavam o antigo largo, agora fecham seus vidros, aceleram seus carros e torcem para passar o mais rápido possível pelo local; pois a sensação generalizada dos que por lá circulam é de que poderão ser alvo de alguma violência a qualquer momento.

O que era preciso então para transformar o Largo da Batata num espaço urbano de qualidade? Depois que o perdemos para sempre é que nos demos conta de que o antigo Largo, com sua vitalidade e sua diversidade – arquitetônica, social, de usos e de funções, já era, apesar dos pesares, o que havia de melhor em termos de espaços urbanos: era a pólis no mais autêntico sentido do termo, o da sociabilidade, da interação, da efervescência, do intercâmbio de valores culturais e de bens materiais; a versão moderna da ágora. A melhor proposta para o Largo da Batata seria justamente aquela inaceitável para o concurso de "reconversão": deixar como está – com melhorias discretas e pontuais na iluminação, na segurança, na arborização; com a introdução de eventos culturais e espetáculos para a grande multidão que circulava pelo local nos fins de tarde e nos fins de semana, e pronto, o Largo da Batata se tornaria o que mais próximo poderíamos chamar de espaço urbano ideal.

Infelizmente, a humildade é item proibido das escolas de arquitetura. Desde o primeiro ano da faculdade, se ensina que o importante é reconstruir, reformar, a reurbanizar, requalificar, revitalizar ou reconverter ao invés de preservar, e os estudantes são doutrinados a acreditar que sempre é possível melhorar aquilo que não precisa ser melhorado, tal como no emblemático caso das "orelhas de burro" do Panteão, e quanto maiores os orçamentos, mais mirabolantes os programas, mais quarteirões forem arrasados, mais pessoas forem desalojadas, mais os arquitetos poderão brincar de Deus.

Mas se o novo Largo da Batata conseguiu o raro status de unanimidade contra, se conseguiu angariar o repúdio de gregos e troianos, por que o projeto foi levado adiante até o final? Não, não se tratou de um caso de loucura coletiva ou de vandalismo gratuito; o novo Largo da Batata, assim como a nova Praça Roosevelt, foram escolhas conscientes e racionais que buscavam atender a determinados interesses, os interesses da pequena casta que atualmente define os rumos da cidade – os barões do setor imobiliário.

E o setor imobiliário já respondeu positivamente à "reconversão do Largo": já despontam os novos empreendimentos, tais como um apavorante prédio de escritórios no estilo pseudoneoclássico e um mastodôntico prédio de apartamentos com o curioso nome de DNA Pinheiros; certamente não o DNA índio e caboclo dos primeiros habitantes do bairro, mas sim o DNA branco e europeu que a elite paulista é, ou pretende ser. Comparada aos novos prédios que pipocam na região e por toda a cidade, a tão vilipendiada arquitetura dos anos 70 e 80 é um primor de qualidade e de integração com o entorno, tal como a elegante torre da sede regional do CREA, até então o marco dominante da paisagem do Largo da Batata.

São os barões do setor imobiliário que vêm moldando à sua própria imagem e semelhança a cidade de São Paulo nos últimos dez ou quinze anos: a cidade da segregação, da degradação do espaço público, do medo, da supremacia de interesses particulares, em especial os interesses do setor da construção civil, sobre o interesse público. Tal como o vício em crack, é esse o modelo que garante a maximização dos lucros no curto prazo. E tal como o vício em crack faz com o corpo e com a família, esse modelo leva à degradação e à morte do tecido urbano e da cidade no médio prazo. O grande pecado do velho Largo da Batata era ser um enclave da periferia na região mais valorizada da cidade; sua destruição realizou o grande sonho do (anti)urbanismo neoliberal: o da cidade sem povo.

Antes mesmo de sua inauguração oficial, o novo Largo da Batata já se consagrou como um desastre urbanístico de grandes proporções. Sim, foram cometidos erros semelhantes com os projetos de "urban renewal" das décadas de 60 e 70. Mas o grande crime do projeto do novo Largo foi não ter aprendido com esses erros.
Finalizo com trechos do artigo "Ai de ti, Largo da Batata", de um estudante de história de 21 anos, Pedro Augusto Pinto, que de maneira magistral, mostrou ter mais sensibilidade com questões urbanas do que muitos medalhões do mundo acadêmico:

“Quem se lembra hoje em dia de que havia uma esquina – e que esquina! – entre as ruas Teodoro Sampaio e Cardeal Arcoverde? Claro que na teoria, geometricamente, a esquina ainda existe, assim como o Largo da Batata também, só que não. Virou um descampado de cimento, como, aliás, quase tudo por lá. Onde não sobrou barraca ou instalações de obras eles plantaram uns pinheirinhos sem-vergonha, projeto a longo prazo!, como que pra rir da cara dos trouxas nós outros, mesmo. Aquela, que eu me lembre, era uma esquina bem formosa, com sobrados comerciais de dois andares, uma vida ativa, alguns bancos, lojas populares, enfim. Tudo isso já faz ano e meio foi posto abaixo, quando me ausentei já não existia, assim como aquele trechinho da Cardeal Arcoverde que dava na velha Cooperativa Agrícola de Cotia, cheio de cabeleireiros.

Mas a surpresa maior foi o outro lado do quarteirão, da Martim Carrasco, transformado tupiniquim e cinicamente em um boulevard, tão charmant quanto a avenida São João. Completamente arrasado! Em tese, outra vez em tese, não era surpresa nenhuma, era muito óbvio que aquilo aconteceria, mas nem por isso deixei de sentir certa tristeza por aquele vazio tão sentimental quanto geográfico. Ali outrora houve uma vida comercial das mais ativas e, por que não, até agradáveis. Bons botecos, cabeleireiros, fliperamas, ferragens, marcenarias, costureiras, relojoarias, tabacarias, açougues, sapateiros, lotéricas, enfim: todo o pouquinho que há de bom nessa triste sociedade brasileira dava lá, até o governo baixar, muito obrigado, sim senhor.

(...) não há mais luta possível, nem a revolta íntima, humilde, inútil mas justa, do ser que se indigna em silêncio, que cospe ou xinga por pura convicção, nem essa revolta tem mais qualquer beleza ou serventia, pois mesmo a alma se oblitera diante dos trinta e tantos andares espelhados, do engarrafamento de carros do ano, da estação de metrô, do Progresso, enfim. E não pretendo ficar de fora deste festim: viva o progresso! O Largo foi ganho. Meus parabéns! Quem ganhou, faça um favor, agradeça a quem perdeu. Eles bem que merecem. E de fora é como já disse algum estúpido: aos vencedores, o Largo da Batata!”


Foto: Stalingrado destruída durante a II Guerra Mundial
« Última modificação: 27/Março/2014, 06:07:01 por Jorge » Registrado
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