PreservaSP
18/Dezembro/2017, 03:43:33 *
Bem-vindo, Visitante. Por favor faça o Login ou Registe-se.

Login com nome de usuário, senha e duração da sessão
Notícias:


Abaixo-assinado pela criação do Parque de Pinheiros, o 1o. do bairro! Assine e divulgue!


 
   Home   Ajuda Pesquisa Calendário Login Registre-se  
Páginas: [1]   Ir para o Fundo
  Imprimir  
Autor Tópico: A história dos calçadões de São Paulo  (Lida 273 vezes)
0 Membros e 1 Visitante estão vendo este tópico.
Jorge
Administrator
Membro
*****

Karma: 0
Offline Offline

Mensagens: 121


Ver Perfil WWW
« : 20/Novembro/2017, 03:34:51 »

Por Jorge Eduardo Rubies
Presidente da Associação Preserva São Paulo


As ruas de pedestres de São Paulo, mais conhecidas como calçadões, são um marco da região Central e uma mudança radical em relação às práticas urbanísticas até então vigentes. A mentalidade rodoviarista dominou o planejamento urbano ao longo da maior parte do século XX, sendo que a grande preocupação dos urbanistas  erafacilitar a circulação dos carros, com os pedestres sempre em segundo plano. Só no final dos anos 60, essa tendência começou a ser questionada diante dos enormes custos econômicos, ambientais e humanos do urbanismo rodoviarista.

No Brasil, o pioneiro desse novo urbanismo foi o então jovem prefeito de Curitiba Jaime Lerner, responsável pela criação da primeira rua de pedestres do Brasil, a Rua das Flores, em 1972, e essa experiência extremamente bem-sucedida serviu de exemplo para várias cidades pelo país afora.  O primeiro choque do petróleo, em 1973, representou um incentivo decisivo para essa mudança de paradigma e a adoção de políticas urbanas que priorizassem o transporte público, de preferência movido a eletricidade.

Foi nesse cenário que assumiu a prefeitura em 1975 Olavo Setúbal. Sua administração representou uma ruptura com a mentalidade rodoviarista até então predominante. O lema de sua administração “Por uma cidade mais humana”, deu o tom da política urbana adotada em sua gestão: priorizar os pedestres e o transporte coletivo, com mais espaço para eles e menos espaço para os automóveis. Durante seu mandato, a primeira linha do metrô, a Norte-Sul, foi completada e a linha Leste-Oeste inaugurada; os primeiros corredores de ônibus da cidade foram criados; seu plano de transportes previa uma malha de nada menos que 280 quilômetros de corredores de trólebus (projeto Sistran) que complementariam a rede de metrô e de trens urbanos, o que, se implantada, criaria um sistema de transporte de massa denso e não poluente que abrangeria toda a cidade. Vale lembrar também que em seu governo foi construída a primeira ciclovia da cidade, na Av. Juscelino Kubitschek (destruída na gestão Jânio Quadros).

O objetivo desse plano era oferecer transporte público rápido, eficiente e de qualidade a toda a população, o que levaria parte dos usuários de automóveis a migrar para o metrô e os trólebus. Ainda dentro dessas políticas de valorização dos pedestres, a prefeitura, através da Emurb, então uma usina de idéias urbanísticas inovadoras para a cidade, decidiu pela implantação de ruas de calçadões em todo o Centro Histórico e Centro Novo.

Embora a Rua São Bento fosse restrita ao tráfego de automóveis desde 1937, no Centro da cidade o escasso espaço público era uma disputa constante entre pedestres e carros. Isso começou a mudar a partir de fevereiro de 1976, e quando completado o programa de implantação de calçadões na região central, em 1978, a maior parte das ruas do Centro Velho e do Centro Novo haviam sido totalmente reurbanizadas, com projeto paisagístico completo, e dedicadas exclusivamente aos pedestres.

O piso escolhido pela equipe da Emurb, liderada pelo arquiteto Haron Cohen, foram placas de granito cinza Mauá intercaladas com pedras portuguesas de mármore branco, materiais escolhidos pela estética, resistência e fácil reposição. O resultado foi da maior beleza e elegância, consagrando-se como um padrão que se tornou marca registrada do Centro Histórico. Toda a rede subterrânea de fios elétricos e telefônicos, gás, esgoto e água foi recuperada, 6000 metros de galerias de águas pluviais foram implantados, dimensionados para dar vazão às chuvas mais intensas.

 Foram instaladas 1210 floreiras, 600 luminárias do tipo globo, 220 bancos, 15 caixas de correio, 300 lixeiras de aço e 65 orelhões, além do plantio de árvores e colocação da escultura “Progresso”, de Vlavianos, na R. 24 de Maio (depois deslocada para o Largo do Arouche). Percebe-se que o objetivo da Emurb não era apenas criar vias de circulação exclusiva para pedestres, mas verdadeiras “praças lineares”, agradáveis espaços de sociabilidade e convivência para se desfrutar da fascinante paisagem e intensa vida urbana do Centro. Infelizmente, esse mobiliário urbano foi sendo vítima do vandalismo e da falta de reposição e manutenção (problema crônico e agudo entre os governantes brasileiros), desaparecendo por completo ao longo dos anos.

Os temores iniciais dos lojistas de que os calçadões atrapalhariam o comércio não se confirmaram, e até hoje o Centro Histórico se mantém como um dos principais pólos varejistas da cidade, apesar da total negligência do Poder Público para com a região. Os calçadões do Centro foram um sucesso absoluto: pesquisas de opinião da época indicavam que 98% da população apoiava a iniciativa.

Tamanho êxito levou o prefeito Setúbal também a implantar os calçadões no centro de um dos principais bairros da cidade, o antigo município independente de Santo Amaro, e a idéia era também dotar os centros da Lapa e da Penha de ruas de pedestres. Mas a idéia não teve continuidade nas administrações de Reynaldo de Barros, Covas e Jânio Quadros nos anos 80. Só na gestão de Luísa Erundina (início dos anos 90) retomou-se a implantação dos calçadões, na Avenida São João e no Anhangabaú.

Depois de 40 anos, os calçadões se tornaram um patrimônio afetivo da população de São Paulo. São um dos grandes marcos da década de 70 ainda existentes na cidade, juntamente com o metrô e o Parque Anhembi. Mesmo incorporados à paisagem urbana, à história e ao quotidiano do Centro, são permanentemente ameaçados por prefeitos sem sensibilidade e compreensão de sua importância. José Serra tirou parte dos calçadões do Centro Novo; Kassab quis descaracterizá-los e durante a gestão Haddad foi encomendado a um urbanista dinamarquês um plano mirabolante para se destruir os calçadões do centro e do Parque Anhangabaú, plano esse que só foi abortado na última hora por conta da penúria orçamentária da Prefeitura. Agora, o atual prefeito retoma a idéia da descaracterização dos calçadões do Centro, trocando-os por um pavimento de concreto(!). Cabe a sociedade defender esse patrimônio afetivo e marco da cidade das veleidades dos políticos de plantão.


(Fotos de autoria desconhecida, da brochura “Ruas de Pedestres” da Emurb, de 1979).
« Última modificação: 20/Novembro/2017, 03:41:36 por Jorge » Registrado
Páginas: [1]   Ir para o Topo
  Imprimir  
 
Ir para:  

Powered by MySQL Powered by PHP Powered by SMF 1.1.4 | SMF © 2006, Simple Machines LLC XHTML 1.0 Válido! CSS Válido!